Além das rugas: sentidos do envelhecer

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Vivemos uma contradição cultural atroz. Enquanto a longevidade se consolida como triunfo – com projeções indicando que, até 2050, cerca de 30% dos brasileiros terão ultrapassado os 60 anos –, nossa mentalidade coletiva permanece presa a estereótipos. O envelhecimento é encarado sob a ótica do declínio inevitável e da inutilidade. É necessário desconstruir essa visão.

O etarismo (preconceito contra pessoas por causa de sua idade) não é apenas um desconforto; é uma violência que opera nas instituições, nas relações e no próprio indivíduo (etarismo autodirigido), que passa a crer na sua obsolescência. Esse preconceito cobra um preço alto à saúde mental. Muitas pessoas idosas se sentem um “peso” e têm riscos elevados de depressão, ansiedade e isolamento. Em uma cultura contemporânea que cria “exércitos de Dorians Grays” aterrorizados pela patologização do tempo, ignoramos as lições de culturas africanas onde a velhice materializa a sabedoria ancestral.

Felizmente, a ciência desmente o mito da incapacidade. Embora o cérebro mude, a neurociência refuta que ele se torne estático. A neuroplasticidade – capacidade do sistema nervoso de se reorganizar – persiste por toda a vida. A crença de que “se é muito velho para estudar” é uma falácia. A atividade intelectual contínua é uma necessidade e fortalece a reserva cognitiva, protegendo a mente contra demências.

Para tal potencialidade florescer, necessitamos de uma visão de mundo que respeite a dignidade do velho, rejeitando práticas infantilizadoras e reconhecendo a experiência acumulada como matéria-prima para a reflexão. Espaços educativos não formais e a convivência intergeracional são vitais aqui, fortalecendo vínculos e ressignificando identidades e sentidos de ser.

Envelhecer com dignidade exige que a sociedade pare de tentar “derrotar o tempo” e compreenda a beleza de todas as etapas da vida. Como alertou Anna Magnani: “Não tirem minhas rugas, elas me custaram muito”. A revolução da longevidade requer a consciência ética de que os velhos são sujeitos de direitos, capazes de aprender sempre.

Prof. Dr. Janote Pires Marques
Docente do Curso de Pedagogia do Centro Universitário Ateneu.
Doutor em Educação Brasileira, mestre e graduado em História.

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