Invisibilidade estrutural: a discrepância entre o valor social e a autonomia decisória na Enfermagem moderna

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A história da Enfermagem moderna, desde os primórdios com Florence Nightingale, é marcada por uma dualidade perversa: o reconhecimento da sua essencialidade e a negação de sua autonomia. No cenário contemporâneo, essa dicotomia atingiu um ponto de ruptura. Durante a crise sanitária global recente, o mundo assistiu à Enfermagem ocupar a linha de frente, mas, passados os picos de emergência, o que restou foi o retorno a uma estrutura de poder que silencia esses profissionais nos espaços de decisão e os mantém em uma luta exaustiva por dignidade salarial.

O cerne do problema reside em uma invisibilidade estrutural. Esta não se refere à ausência física dos profissionais, que compõem a maior força de trabalho na saúde, mas à ausência de sua voz nos processos de formulação de políticas públicas e na gestão de alto nível das instituições. A Enfermagem é frequentemente vista sob uma lente romântica de “vocação” ou “abnegação”, uma construção social que, sob o pretexto de enaltecer o cuidado, serve para despolitizar a categoria e justificar salários aquém da responsabilidade técnica exercida.

Apesar de gerenciarem unidades complexas e coordenarem o fluxo assistencial, enfermeiros raramente ocupam cargos de alta gestão (CEOs ou secretários de Saúde) em proporção à sua presença no setor. Existe uma hegemonia histórica que reserva a “autoridade decisória” à Medicina, relegando à Enfermagem a “autoridade operacional”. Essa divisão técnica do trabalho é anacrônica e ignora a evolução acadêmica e científica da profissão.

Essa discrepância gera um ciclo de desvalorização. Sem representatividade nos espaços de liderança, as demandas específicas da categoria, como o piso salarial nacional e a jornada de 30 horas, são tratadas como custos operacionais a serem minimizados, e não como investimentos em segurança do paciente. Estudos demonstram que a autonomia do enfermeiro está diretamente ligada à redução de taxas de mortalidade e erros hospitalares, provando que a valorização da categoria é uma questão de saúde pública, não apenas de direitos trabalhistas.

Não se pode debater a invisibilidade da Enfermagem sem abordar a questão de gênero. Por ser uma profissão majoritariamente feminina, ela carrega o estigma histórico do “trabalho de cuidado” doméstico, socialmente desvalorizado e muitas vezes visto como uma extensão natural do papel da mulher. O mercado de trabalho utiliza essa percepção para comprimir salários, tratando o cuidado como uma commodity de baixo valor agregado, quando, na verdade, ele exige um rigor científico e uma resiliência emocional que poucos setores demandam.

A luta pelo reconhecimento salarial, portanto, é também uma luta feminista e política. A resistência de entidades patronais e governamentais em implementar pisos dignos revela uma estrutura que prefere o colapso por exaustão do profissional à redistribuição de excedentes financeiros no setor da saúde.

A Enfermagem moderna não busca apenas gratidão, busca soberania profissional. Para romper a invisibilidade estrutural, é imperativo que a categoria ocupe os espaços de poder legislativo e administrativo. A autonomia decisória não deve ser uma concessão, mas o reconhecimento técnico de quem detém a visão mais holística do paciente e do sistema.

Enquanto a Enfermagem for tratada apenas como um recurso operacional e não como uma força intelectual e política, a saúde pública continuará a sofrer de uma fragilidade sistêmica crônica. O valor social precisa, finalmente, encontrar o seu reflexo no contracheque e no assento à mesa onde o futuro da saúde é decidido.

Referências

BRASIL. Lei nº 14.434, de 4 de agosto de 2022. Altera a Lei nº 7.498, de 25 de junho de 1986, para instituir o piso salarial nacional do Enfermeiro, do Técnico de Enfermagem, do Auxiliar de Enfermagem e da Parteira. Brasília, DF: Diário Oficial da União, 2022.

COFEN – CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM. Pesquisa Perfil da Enfermagem no Brasil. Relatório Final. Brasília: COFEN/FIOCRUZ, 2015.

FREIRE, P. S. et al. Autonomia profissional do enfermeiro: uma revisão integrativa. Revista Brasileira de Enfermagem, Brasília, v. 74, n. 5, 2021.

SANTOS, T. A. et al. Valorização profissional da enfermagem: percepções de enfermeiros em um hospital universitário. Revista Gaúcha de Enfermagem, Porto Alegre, v. 40, e20180121, 2019.

Profª. Drª. Viviane de Sousa Tomaz
Docente do Curso de Enfermagem do Centro Universitário Ateneu.
Doutora e mestra em Microbiologia Médica, especialista em Enfermagem Neotal e Pediátrica e graduada em Enfermagem.

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