Vivemos tempos acelerados, nos quais a pressa parece ter se tornado uma necessidade básica para dar conta das atividades diárias. Repetimos constantemente que estamos sem tempo. Nesse cenário, proponho uma reflexão sobre a educação e a formação de nossas crianças. Tenho conversado com professores de diversos segmentos de ensino, e o que percebo em seus relatos é uma preocupação recorrente com o comportamento das crianças na atualidade, muitas vezes marcado pela dificuldade em reconhecer limites e respeitar a autoridade pedagógica.
A formação infantil tornou-se, assim, um desafio que ultrapassa os muros da escola e alcança o cotidiano das famílias e das relações sociais. Predomina, ainda, a concepção de que ensinar significa apenas transmitir conteúdos, corrigir comportamentos e impor regras. No entanto, defendo que a aprendizagem mais profunda e duradoura não nasce da imposição, mas da convivência. Ensinar caminhando com a criança é o que transforma o aprendizado em uma experiência que permanece por toda a vida.
A criança aprende, antes de tudo, pela observação. Os adultos que a cercam tornam-se referências vivas de como agir, falar, reagir e se relacionar com o mundo. Assim, o exemplo cotidiano possui força pedagógica maior que qualquer discurso. Quando um adulto fala sobre respeito, mas age com impaciência, a criança aprende a impaciência. Quando ensina sobre amor e demonstra acolhimento, escuta e cuidado, a criança aprende o amor na prática. O que se vive ao lado da criança inscreve-se de forma mais profunda do que aquilo que apenas se ouve.
Nessa perspectiva, educar caminhando com a criança significa estar presente de maneira intencional. Trata-se de acompanhar as suas experiências, ouvir as suas histórias, dialogar sobre as suas dúvidas e participar ativamente de seu processo de crescimento. Situações simples do cotidiano, como uma conversa durante o trajeto para a escola, uma brincadeira ou um momento à mesa, tornam-se oportunidades valiosas de formação. É nesses espaços de convivência que valores como empatia, responsabilidade e respeito deixam de ser conceitos abstratos e passam a ser experiências vividas.
Essa compreensão de educação fundamentada na convivência não se limita ao campo pedagógico contemporâneo, mas também encontra respaldo em princípios bíblicos. Em Deuteronômio, observa-se a orientação de que os ensinamentos devem ser transmitidos aos filhos nas atividades diárias, integrando fé, valores e vida cotidiana, “andando pelo caminho”, em casa e nas rotinas familiares (BÍBLIA, Dt 6:6-8).
A formação, portanto, é apresentada como um processo contínuo e relacional. De modo semelhante, o livro de Provérbios destaca a responsabilidade de orientar a criança desde cedo, afirmando que a instrução recebida na infância tende a acompanhar o indivíduo ao longo de toda a vida (BÍBLIA, Pr 22:6). Esses princípios reforçam a ideia de que educar é caminhar junto, unindo ensino, exemplo e convivência.
A aprendizagem mediada pela relação afetiva possui impacto duradouro. Estudos no campo da educação e da psicologia apontam que o desenvolvimento infantil ocorre de forma integrada, envolvendo dimensões cognitivas, sociais e emocionais (VYGOTSKY, 1991; WALLON, 2007). Quando a criança se sente acolhida e segura, desenvolve maior autonomia, curiosidade e capacidade de aprender. O vínculo, portanto, não é elemento secundário, mas parte constitutiva do processo educativo.
Por outro lado, práticas educativas baseadas no distanciamento ou no autoritarismo excessivo podem gerar obediência momentânea, mas não garantem a internalização de valores. A ausência de diálogo e de escuta enfraquece a formação do senso crítico e da responsabilidade pessoal. Nesses casos, a aprendizagem tende a ser superficial, restrita ao cumprimento de ordens, sem alcançar a construção de sentido. Como afirma Freire (1996), educar exige respeito à autonomia do educando e compromisso com uma prática humanizadora.
É importante destacar que caminhar com a criança não significa ausência de limites. Pelo contrário, implica exercer autoridade com coerência, diálogo e afeto. Limites são necessários para a convivência social, mas precisam ser acompanhados de explicação, escuta e exemplo. A educação que combina firmeza e cuidado contribui para a formação de sujeitos capazes de compreender regras, respeitar o outro e agir com responsabilidade.
Assim, a aprendizagem que nasce da convivência não se restringe ao desempenho escolar. Ela acompanha a criança na adolescência, na vida adulta e nas relações que construirá ao longo da vida. Ensinar caminhando com ela é investir na formação de seres humanos mais empáticos, conscientes e preparados para viver em sociedade. Trata-se de uma educação que ultrapassa conteúdos e resultados imediatos, deixando marcas que o tempo não apaga.
Defendo, portanto, que a presença intencional do adulto na vida da criança é um dos pilares de uma educação verdadeiramente transformadora. Em tempos de pressa e distanciamento, caminhar junto é um ato pedagógico e também um ato de humanidade. É justamente essa educação vivida na relação que torna o aprendizado duradouro.
REFERÊNCIAS
BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2017.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
VYGOTSKY, Lev S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1991.
WALLON, Henri. A evolução psicológica da criança. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
Prof. Dr. José Deusimar Rodrigues
Docente do Curso de Pedagogia do Centro Universitário Ateneu.
Doutor em Psicanálise, mestre em Psicologia do Desenvolvimento na Educação, especialista em Neurociência na Educação, em Psicanálise Clínico, em Psicanálise Didata, em Teoria Psicanalítica, em Educação, Gênero e Sexualidade, em Neurociência e Aprendizagem e em Neuropsicopedagogia Institucional, Clínico e Hospitalar e graduado em Pedagogia e Teologia.
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