Segundo resultado do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) realizado em 2022, cerca de 50% dos estudantes brasileiros não alcançaram o nível mínimo de proficiência em leitura, permanecendo, assim, dentro do grupo de piores resultados entre os países participantes do programa no quesito competência leitora. Acreditamos que tal fato, que já se configura como uma preocupante tradição de resultados negativos do país na história do Pisa, não decorre apenas da já consensual falta de estrutura e investimento no sistema educacional nacional, mas também, de uma concepção inadequada acerca do ato de ler, que é tida, por grande parte dos docentes de todos os níveis, como exclusiva da disciplina de linguagens, pouco científica e muito individual.
Esta visão há muito já se mostra pouco usual e desprovida de fundamentos diante das concepções contemporâneas de leitura desenvolvidas pelas ciências da linguagem, da educação e da cognição. Longe de se restringir à decifração de signos ou ao domínio mecânico do código escrito, a leitura constitui-se como uma prática complexa de construção de sentidos, mediada por conhecimentos prévios, contextos socioculturais e objetivos comunicativos.
Trata-se, portanto, de uma atividade essencialmente interpretativa, que mobiliza operações cognitivas sofisticadas e que se realiza de maneira transversal a todas as áreas do conhecimento. Ler um enunciado matemático, um gráfico estatístico, um problema de física ou um texto histórico exige competências leitoras específicas, sem as quais o acesso ao conteúdo disciplinar torna-se superficial ou mesmo inviável.
Ao dissociar a leitura das demais disciplinas e atribuí-la exclusivamente ao campo das linguagens, a escola contribui para a naturalização de uma fragmentação do conhecimento que já não se sustenta teoricamente. A leitura, enquanto prática social e cognitiva, é condição para a aprendizagem significativa em qualquer área, pois é por meio dela que o estudante interpreta conceitos, estabelece relações, formula hipóteses e constrói argumentos.
Quando reduzida à decodificação ou tratada como habilidade acessória, perde-se de vista o seu papel estruturante no processo educativo, o que impacta diretamente o desempenho discente e ajuda a explicar, ao menos em parte, os reiterados resultados insatisfatórios em avaliações de larga escala.
Outro equívoco amplamente difundido no ambiente escolar diz respeito à ideia de que a leitura não constitui um objeto científico ou passível de sistematização teórica, sendo compreendida, muitas vezes, como uma habilidade espontânea, intuitiva ou meramente subjetiva. Essa percepção acaba por desestimular o seu estudo aprofundado e seu desenvolvimento consciente, inclusive, entre docentes da área de linguagens, que frequentemente privilegiam conteúdos gramaticais ou literários em detrimento de uma reflexão metodológica sobre os processos de leitura.
Ao ser vista como algo “natural”, a leitura deixa de ser planejada, ensinada e avaliada de forma criteriosa, como ocorre com outros saberes escolares, reforçando a falsa noção de que não há fundamentos teóricos, procedimentos ou estratégias que possam qualificar a formação do leitor.
Como consequência dessa visão, consolida-se a ilusão de que toda leitura se resume à opinião individual de quem lê, como se os sentidos atribuídos ao texto fossem sempre equivalentes e igualmente legítimos, independentemente de sua ancoragem nos elementos textuais e contextuais. Tal entendimento esvazia a responsabilidade interpretativa do leitor, que passa a ignorar marcas linguísticas, inferências necessárias, pressupostos e subentendidos que estruturam o texto.
Ao desconsiderar esses aspectos, perde-se o compromisso com a coerência interpretativa e com o diálogo rigoroso com o texto, transformando a leitura em um exercício impressionista, distante de seu potencial formativo. Recuperar a leitura como prática teorizável, argumentável e passível de validação é, portanto, condição essencial para formar leitores críticos, capazes de sustentar interpretações fundamentadas e de responder de modo responsável aos desafios cognitivos e sociais impostos pelos textos que circulam na vida acadêmica e pública.
Diante desse cenário, torna-se evidente a pertinência de se construir, de forma coletiva e institucional, uma postura mais atualizada e consistente por parte dos docentes de todas as áreas do conhecimento quanto ao papel central da leitura e ao seu estímulo contínuo no cotidiano escolar. Reconhecer a leitura como prática interpretativa, interdisciplinar e teoricamente fundamentada implica assumir que o desenvolvimento da competência leitora não é uma tarefa acessória, tampouco restrita a um único componente curricular, mas um eixo estruturante da aprendizagem.
Nesse sentido, é fundamental que essa perspectiva seja incorporada desde a formação inicial, nos cursos de Pedagogia e licenciaturas, de modo que os futuros professores compreendam a leitura como mediação essencial de seu fazer pedagógico. Investir nessa mudança conceitual e formativa é investir na qualidade do ensino, na autonomia intelectual dos estudantes e na superação de um dos entraves mais persistentes da educação brasileira.
Prof. Me. Jivago Oliveira da Fonseca
Docente do Curso de Pedagogia do Centro Universitário Ateneu.
Mestre em Letras, especializando em Design Instrucional e graduado em Letras – Língua Portuguesa.
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