A modelagem plana manual é frequentemente compreendida como um campo estritamente técnico dentro do ensino de moda. No entanto, essa leitura é limitada e ignora um elemento fundamental do processo: o corpo. Embora exista o interesse pelo domínio de métodos e fórmulas de modelagem, observa-se, paradoxalmente, um baixo interesse em compreender aquilo que será vestido. Nesse cenário, o ensino da modelagem enfrenta o desafio de conciliar técnica, tempo pedagógico e experiência sensível, especialmente, em contextos formativos cada vez mais acelerados.
Os cursos e formações em moda dedicam ampla atenção aos materiais têxteis, às estéticas, às silhuetas e aos estilos, oferecendo aos alunos uma grande quantidade de informações. Entretanto, o corpo, base concreta da modelagem, muitas vezes permanece como elemento secundário no processo de aprendizagem. Essa dissociação compromete o entendimento pleno da disciplina, pois transforma a modelagem em mera aplicação de fórmulas, esvaziando o seu potencial reflexivo e projetual.
O ensino da modelagem plana se apoia em métodos consolidados. Porém, a ausência de tempo destinado à validação desses métodos reforça a ideia de que repetir procedimentos é suficiente. Formar profissionais críticos exige mais do que a reprodução técnica: exige provocar o aluno a testar, investigar e refletir sobre os métodos que utiliza. É nesse processo investigativo que a fórmula deixa de ser apenas um dado e passa a comunicar sentido.
Desse modo, experiência prática, incluindo o erro, desempenha papel central nesse aprendizado. Errar não deve ser compreendido como desconhecimento, mas como parte constitutiva do processo formativo. Cada tentativa malsucedida gera análise, compreensão das causas e refinamento das soluções. Na modelagem, o domínio das fórmulas é essencial, mas é a experimentação orientada que transforma informação em conhecimento sólido. A ergonomia, nesse contexto, revela-se como um saber construído também pela subjetividade e pela vivência, ampliando a capacidade do futuro profissional de resolver problemas técnicos de forma criativa.
Ensinar modelagem plana é, portanto, mais do que ensinar métodos: é formar um pensamento atento ao corpo, à experiência e à investigação. Devemos te criar espaços para que o aluno, munido de fundamentos técnicos, possa experimentar, errar, refletir e compreender. Somente assim a modelagem deixa de ser um exercício mecânico e se consolida como um campo de conhecimento crítico, sensível e profundamente humano.
Profª. Vaneska da Silva Rebouças
Docente do Curso de Design de Moda do Centro Universitário Ateneu.
Tem MBA em Administração e Negócios e graduada em Design de Moda.
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