A persistência de zoonoses negligenciadas evidencia falhas estruturais nas políticas de saúde pública e saneamento. A leishmaniose visceral destaca-se pela gravidade e mudança epidemiológica. Antes rural, a doença urbanizou-se: dados da Secretaria da Saúde do Estado do Ceará (Sesa-CE) mostram que, entre 2015 e 2025, o estado confirmou 3.196 casos humanos, sendo 66,30% em áreas urbanas. Essa transição exige superar ações isoladas e consolidar a Saúde Única (One Health), integrando as saúdes humana, animal e ambiental.
O adensamento populacional e a infraestrutura precária determinam a proliferação do vetor, o flebotomíneo. No Ceará, Fortaleza apresenta transmissão muito intensa, enquanto Cruz e Jijoca de Jericoacoara registram transmissão intensa. Nesse contexto, a Organização Mundial da Saúde (WHO, 2025) reforça que o enfrentamento das doenças tropicais negligenciadas requer estratégias integradas de vigilância, prevenção e controle, baseadas na Saúde Única.
A vigilância do reservatório animal é um componente essencial das ações de controle, visto que o cão constitui o principal reservatório doméstico da leishmaniose visceral. Embora a positividade canina anual no Ceará apresente tendência de declínio, registraram-se 82.194 cães reagentes no período analisado (CEARÁ, 2026). Esses dados evidenciam a necessidade de fortalecer a vigilância epidemiológica e as ações de prevenção e controle, em consonância com a abordagem da Saúde Única (WHO, 2025).
Os impactos da doença refletem-se na morbimortalidade humana, afetando vulneráveis como crianças menores de 10 anos, que somam 25,66% dos casos no Ceará. Com letalidade média de 7,26%, o manejo clínico é agravado pela confecção com o HIV, que atingiu 23,01% das notificações em 2025 (CEARÁ, 2026). A WHO (2025) destaca a necessidade de ampliar o acesso às ações de prevenção, diagnóstico e tratamento das doenças tropicais negligenciadas como parte dos esforços globais para seu controle. Assim, enfrentar a leishmaniose visceral demanda políticas públicas permanentes fundamentadas na Saúde Única, integrando ações voltadas à saúde humana, animal e ambiental para reduzir a transmissão e seus impactos na população.
Referências Bibliográficas
– CEARÁ. Secretaria da Saúde do Estado. Boletim Epidemiológico: Leishmaniose Visceral. Fortaleza: SESA, 10 de julho de 2026. Disponível em: https://www.ce.gov.br/saude/wp-content/uploads/sites/64/2018/06/Boletim-LV-2026-1.pptx.pdf
– WHO (World Health Organization). Global report on neglected tropical diseases 2025. Geneva: World Health Organization, 2025. Disponível em: https://iris.who.int/server/api/core/bitstreams/9c4655d8-3671-4503-ae51-4a80bb44d5e0/content
Profª. Ma. Thayla Kalyne Brocha Miranda
Docente do Curso de Medicina Veterinária do Centro Universitário Ateneu.
Mestra em Biologia de Agentes Infecciosos e Parasitários, especialista em Higiene e Inspeção de Produtos de Origem Animal e graduada em Medicina Veterinária.
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