A fibromialgia é uma das condições de dor crônica que mais incapacitam e geram desconfortos neurossensoriais e musculoesqueléticos. É uma doença que não pode ser considerada apenas como uma “dor muscular resistente”. Se manifesta como uma sensibilização central (amplificação da dor), acompanhada de fadiga, distúrbios do sono e sofrimento psíquico.
Estimativas da Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR), em consonância com diretrizes do Ministério da Saúde, esta afecção atinge cerca de 2% a 3% da população nacional, o que representa cerca de 4 a 6 milhões de brasileiros. Destes, de 70% a 90% destes pacientes são do sexo feminino. Frente a um cenário de grande magnitude epidemiológica e impacto socioeconômico, a busca por intervenções não farmacológicas eficazes deixa de ser um luxo assistencial para se tornar uma prioridade de saúde pública.
Nesse contexto, o dry needling (também conhecido como agulhamento a seco) tem se consolidado como uma grande ferramenta, indispensável no arsenal da Fisioterapia. A técnica baseia-se na inserção precisa de agulhas filiformes estéreis em pontos-gatilho miofasciais (trigger points), visando inativar focos de hiperirritabilidade muscular. Esta aplicação melhora a circulação sanguínea diminuída pela tensão muscular, aumenta a recaptação de acetilcolina na placa motora e provoca uma modulação da dor pela liberação de endorfinas na medula, substância cinzenta periaquidutal e no sistema nervoso central.
Parte da comunidade médica ainda encara intervenções invasivas mínimas com ceticismo em quadros de sensibilização central. Porém, dados recentes mostram o contrário. Uma revisão sistemática com meta-análise conduzida por Valera-Calero et al. (2022) demonstrou que a aplicação do dry needling em pacientes com fibromialgia proporciona redução estatisticamente significativa na intensidade da dor e na fadiga, além de elevar o limiar de dor por pressão e melhorar a qualidade do sono em intervenções curtas de até seis semanas.
O alívio periférico gerado pela inativação dos pontos-gatilho atua diretamente na diminuição do input nociceptivo constante que alimenta e sustenta o estado de hiperexcitabilidade no sistema nervoso central. Porém, mesmo com esses resultados positivos, o dry needling não deve ser utilizado como única opção de tratamento. A síndrome exige uma abordagem integrativa, na qual o agulhamento atua como uma ferramenta poderosa no alívio da sintomatologia.
A abordagem deve ser multidisciplinar, utilizando-se de terapias manuais, acupuntura, alimentação balanceada, medicação se necessário e, na minha opinião o mais importante, exercícios terapêuticos aeróbios e saúde mental. Estes últimos são considerados padrão-ouro de tratamento, quando aplicados a longo prazo, recomendado pelos Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) do Ministério da Saúde.
Tratar a fibromialgia exige ciência, precisão e empatia. Ignorar o potencial do dry needling sob a justificativa de que a dor é “apenas central” é reduzir a complexidade do paciente. Os dados estatísticos confirmam o peso da doença na população e a literatura científica chancela a eficácia da técnica. Cabe agora aos profissionais da saúde integrarem essa ferramenta com rigor técnico, fundamentação teórica e foco na autonomia e qualidade de vida de quem vive com a dor diária.
Referências Bibliográficas
Sociedade Brasileira de Reumatologia (https://www.reumatologia.org.br/)
Ministério da Saúde: Campanha de Conscientização Mundial sobre a Fibromialgia. Disponível nos portais oficiais da SBR e do Ministério da Saúde.
PCDT – Diretrizes do Ministério da Saúde: Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas da Fibromialgia
Valera-Calero, J. A., et al. (2022): Efficacy of Dry Needling in Patients with Fibromyalgia: A Systematic Review and Meta-Analysis.
Vicente-Mampel, L., et al. (2024): Efeitos imediatos e a curto prazo da intervenção por agulhamento em pontos-gatilho na dor e sensibilidade em mulheres com fibromialgia.
Prof. Dr. Eduardo de Almeida e Neves
Docente do Curso de Fisioterapia do Centro Universitário Ateneu.
Doutor em Biotecnologia, especialista m Educação a Distância, especializando em Quiropraxia e graduado em Fisioterapia.
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