O professor entre o ensinar e o bem viver: por que cuidar da saúde docente fortalece a universidade

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A qualidade da educação superior depende diretamente da qualidade de vida de seus professores. Embora a competência técnica seja indispensável, a excelência acadêmica também exige condições de trabalho que preservem a saúde física e mental dos docentes. Em um cenário marcado pelo aumento das exigências da carreira universitária, cuidar da saúde do professor deixou de ser apenas uma questão individual para se tornar um compromisso com a qualidade do ensino, da pesquisa e da formação dos estudantes.

Nas últimas décadas, a carreira universitária tornou-se significativamente mais complexa. Além das atividades de ensino, espera-se que o professor produza conhecimento científico, publique artigos, oriente estudantes, participe de bancas, desenvolva projetos de extensão, integre comissões administrativas e acompanhe as constantes transformações tecnológicas da educação.

Segundo o Censo da Educação Superior 2024, divulgado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), o Brasil conta com 2.561 instituições de ensino superior, mais de 10,2 milhões de estudantes matriculados e 374.501 docentes em exercício. Esses números evidenciam a relevância estratégica do trabalho docente para a produção do conhecimento, a inovação e a formação de profissionais qualificados.

O desafio surge quando essas responsabilidades deixam de ser complementares e passam a disputar continuamente o mesmo recurso: o tempo. A sensação de que sempre existe uma tarefa pendente faz com que o trabalho ultrapasse os limites da jornada formal e ocupe momentos destinados ao descanso, ao convívio familiar e ao lazer. Em um ambiente que valoriza fortemente a produtividade acadêmica, estabelecer limites entre a vida profissional e a vida pessoal torna-se um desafio crescente para muitos docentes.

Os impactos dessa dinâmica já são reconhecidos como um importante desafio para a saúde do trabalhador. O Ministério da Saúde destaca que a síndrome de burnout está associada à exposição prolongada ao estresse ocupacional crônico, favorecida por fatores como excesso de demandas, pressão constante por resultados, elevada responsabilidade e desequilíbrio entre as exigências do trabalho e os recursos disponíveis para enfrentá-las. Para responder a esse problema, o Sistema Único de Saúde (SUS), por meio da Rede de Atenção Psicossocial (Raps), oferece ações de promoção da saúde mental, prevenção, acolhimento e tratamento às pessoas em sofrimento psíquico relacionado ao trabalho.

Esses dados demonstram que o esgotamento profissional não decorre apenas da quantidade de tarefas executadas, mas também da forma como o trabalho é organizado e vivenciado na sociedade contemporânea. É nesse ponto que as reflexões do filósofo Byung-Chul Han contribuem para ampliar essa compreensão. Em Sociedade do Cansaço, o autor argumenta que a lógica do desempenho transforma o indivíduo em agente da própria cobrança. O sujeito passa a incorporar a necessidade permanente de produzir, superar metas e manter-se disponível, tornando-se, simultaneamente, quem impõe e quem suporta essa exigência.

Nessa dinâmica, descansar frequentemente é percebido como improdutividade, favorecendo processos contínuos de autoexploração e desgaste emocional. Reconhecer essa realidade não significa defender menor compromisso com a universidade. Ao contrário, significa compreender que ensinar, pesquisar e inovar exigem capacidades que não florescem em um estado permanente de exaustão. Criatividade, pensamento crítico, atenção aos estudantes e produção científica de qualidade dependem também de tempo para recuperar as energias, conviver com a família, dedicar-se ao lazer e cuidar da própria saúde.

As instituições de ensino superior desempenham papel decisivo nesse processo. Ambientes que valorizam o planejamento distribuem de forma equilibrada as atividades acadêmicas e promovem ações de cuidado com a saúde ocupacional, que fortalecem não apenas o bem-estar de seus docentes, mas também a qualidade da aprendizagem, da pesquisa e da extensão.

Em uma instituição de ensino superior comprometida com a excelência acadêmica, a formação humana e a forte conexão com a sociedade, investir na saúde mental dos professores significa investir no futuro da educação superior. Afinal, universidades de excelência não são construídas apenas por indicadores de produtividade, mas, sobretudo, por pessoas que encontram condições para ensinar, pesquisar e inovar sem abrir mão do próprio bem-estar.

Prof. Marlison Fernandes Bezerra
Docente do Curso de Psicologia do Centro Universitário Ateneu.
Mestre em Psicologia, especializando em Terapia Cognitivo-Comportamental, especialista em Terapia Analítico-Comportamental Clínica e em Psicoterapia Breve Focal e graduado em Psicologia.

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