A emergência cada vez mais frequente de cepas bacterianas patogênicas multirresistentes tem se tornado um grave problema de saúde pública em nível mundial. O principal fator contribuinte para esse quadro é a pressão seletiva causada pelo uso indiscriminado de agentes antimicrobianos, prescritos sem a observância das diretrizes técnicas pertinentes. Muitas vezes, são prescritos fármacos de última geração, mesmo havendo outras opções mais tradicionais e corriqueiras. Outras falhas comuns são doses mal calculadas e tempo de tratamento inadequado (Rabelo, 2022).
Globalmente, a ameaça e os custos advindos da resistência antimicrobiana (RAM) são amplamente reconhecidos. Os agentes patogênicos resistentes aos antibióticos causam cerca de cinco milhões de mortes mundialmente, resultando em 1,5 bilhão de euros em despesas com saúde e perdas de produtividade a cada ano (“EU Action on Antimicrobial Resistance – European Commission”, 2025).
A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera a RAM como “uma das dez ameaças globais à saúde pública que a humanidade enfrenta” com base nas previsões de que, até 2050, será responsável por mais de 10 milhões de mortes por ano, com um custo estimado em 100 trilhões de dólares em todo o mundo (“Antimicrobial resistance”).
Na Medicina de cães e gatos, o compartilhamento de classes farmacológicas com a Medicina humana eleva o risco de disseminação hospitalar e comunitária de patógenos críticos, como Staphylococcus pseudintermedius resistente à meticilina (MRSP), Staphylococcus aureus (MRSA) e enterobactérias MDR. O uso intensivo de antimicrobianos seleciona linhagens resistentes tanto entre patógenos quanto na microbiota comensal (intestinal e cutânea), favorecendo a transferência horizontal de genes via plasmídeos, bacteriófagos e elementos genéticos móveis (“EU Action on Antimicrobial Resistance – European Commission”, 2025).
A escolha assertiva do princípio ativo deve ser individualizada e fundamentar-se no diagnóstico microbiológico provável, sensibilidade do agente, particularidades do hospedeiro, perfil farmacocinético e farmacodinâmico do princípio ativo, penetração tecidual, toxicidade e custo. Sempre que possível, recomenda-se a realização de exame citológico com coloração de Gram e o conhecimento dos padrões locais de sensibilidade. Assim, fica evidente a imprescindibilidade do (a) médico (a)-veterinário (a) na prescrição de tais medicamentos, visto ser o único profissional capacitado a avaliar todos esses fatores na prescrição do princípio ativo mais adequado a cada caso.
No Brasil, desde 2010 é proibida a venda de antimicrobianos para uso humano sem a retenção da devida receita médica (Brasil, 2010). Na Medicina Veterinária, lamentavelmente, tais substâncias são comercializadas indiscriminadamente em estabelecimentos agropecuários, clínicas veterinárias e petshops, sem qualquer tipo de controle. Tal discrepância dificulta sobremaneira o combate à emergência de cepas bacterianas multirresistentes, sobretudo, aquelas que acometem simultaneamente a espécie humana e animais de produção e de companhia.
Por tratar-se de uma importante e grave questão de saúde pública, o uso prudente de antibióticos na rotina médico-veterinária exige rigor diagnóstico, treinamento e atualização constantes dos profissionais. Além disso, torna-se urgente a atuação do poder público, no sentido de desenvolver uma legislação sólida, específica e rigorosa a fim de coibir a disseminação, sem qualquer critério técnico, de antimicrobianos em todo o território nacional.
Referências Bibliográficas:
BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução RDC nº 44, de 26 de outubro de 2010. Dispõe sobre o controle de medicamentos à base de substâncias classificadas como antimicrobianos, de uso sob prescrição médica, isoladas ou em associação. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, ano 147, n. 206, p. 70-73, 27 out. 2010. Disponível em: <http://www.anvisa.gov.br>. Acesso em: [26 abr. 2026].
EU Action on Antimicrobial Resistance – European Commission. Disponível em: <https://health.ec.europa.eu/antimicrobial-resistance/eu-action-antimicrobial-resistance_en>.
RABELO, R. C. Guia de Uso Racional de Antimicrobianos para Cães e Gatos. Brasília, DF: Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, 2022.
Prof. Dr. Fernando Henrique Azevedo Lopes
Docente do Curso de Medicina Veterinária do Centro Universitário Ateneu.
Doutor em Ciências Médicas, mestre em Patologia, especialista em Clínica Médica e Cirúrgica de Pequenos Animais e graduado em Medicina Veterinária.
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