A má influência do algoritmo, em detrimento do rigor científico

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Existe um fenômeno fascinante e ligeiramente aterrorizante na contemporaneidade: se você colocar na mesma balança um professor com 20 anos de vivência de obra, especialização, mestrado ou doutorado, e cicatrizes reais nas mãos de tanto coordenar canteiros, e um jovem influenciador digital com boas dicas de iluminação de LED, diante de um ring light e uma câmera, quem leva a curtida? Na maioria das vezes, o algoritmo ganha de lavada do latim acadêmico.

Como alguém que transita há décadas entre a poeira da execução e a sala de aula universitária, assisto a isso com um misto de perplexidade e urgência pedagógica. Vivemos a era do endeusamento do palpite. O “eu acho” ganhou status de tese científica, enquanto a pesquisa rigorosa e a formação sólida são tratadas como burocracia obsoleta. Mas a conta, inevitavelmente, chega. E o boleto do empirismo raso costuma vir acompanhado de juros altos, paredes fora de prumo e projetos que não resistem ao primeiro dia de uso no mundo real.

O grande perigo do debate atual é cairmos na armadilha da falsa dicotomia da teoria sem prática e da prática sem fundamento. Há quem acredite que a universidade vive numa redoma de vidro, isolada da realidade. Os chamados “estudantes profissionais”, que emendam uma pós-graduação na outra, acumulam títulos lato e stricto sensu, mas nunca sujaram o sapato de barro em uma obra. Sem a vivência prática, o teste do estresse da realidade, muitas dessas teorias se desmancham no ar como castelos de areia. Falta o traquejo, o cheiro do canteiro, a compreensão de que o papel aceita tudo, mas o cliente não aceita bater cabeça, joelhos e canelas por aí.

Por outro lado, o polo oposto é o vale-tudo do “faça você mesmo” ditado por redes sociais. É a figura do influenciador que, após assistir a dois vídeos no YouTube e reformar o próprio lavabo com milagres orientais, se autoproclama autoridade máxima em arquitetura de interiores, ergonomia ou engenharia civil. Sem pesquisa, sem método, sem histórico acadêmico e, muitas vezes, sem a menor responsabilidade técnica, vende-se a ilusão de que a complexidade do espaço habitado se resume a um truque rápido de TikTok.

O resultado? Soluções estéticas mirabolantes que violam normas técnicas, comprometem a segurança estrutural, ignoram a ergonomia e transformam a vida do usuário em um pesadelo funcional. O “bonito no feed” sobrepõe-se ao “funcional e seguro na vida real”. A defesa intransigente que faço na academia e na minha rotina profissional é simples: teoria e prática não são rivais, são cônjuges. É um casamento inegociável, com o amor pleno entre a ciência e a ação.

A formação profissional estruturada, aquela que passa pela universidade, pela pesquisa científica rigorosa, pelas diretrizes de ergonomia, conforto ambiental e resistência dos materiais, é o alicerce que impede o profissional de ser um mero repetidor de modismos. É a ciência que explica por que o ambiente afeta o comportamento humano, por que a iluminação inadequada gera fadiga crônica e por que o dimensionamento de um mobiliário precisa respeitar a biomecânica do corpo.

Em contrapartida, é a prática profissional que dá alma, agilidade e casca a esse conhecimento. É o laboratório da obra que testa a teoria, que desafia o acadêmico a encontrar soluções viáveis e econômicas para problemas complexos. O verdadeiro profissional de excelência é aquele que tem a humildade de aprender com o mestre de obras que está na lida há 30 anos, mas que possui o discernimento técnico e científico para validar, corrigir e padronizar esse conhecimento através do método.

E, sendo este profissional professor, está automaticamente incumbido a ensinar às novas gerações de estudantes, e lembrar ao público em geral que autoridade não se mede pelo número de seguidores, mas pela profundidade do estudo, pela ética da responsabilidade técnica e pelo rastro de entregas sólidas deixadas ao longo dos anos.

O influenciador, bacharel do “eu acho”, tem seu papel no entretenimento e na difusão rápida de tendências, mas ele não substitui a responsabilidade civil, o projeto executivo bem resolvido e a pesquisa aprofundada. O profissional da área, de qualquer que seja, com as suas experiências práticas pautadas na teoria comprovada de suas pesquisas e de outros, está autorizado a influenciar pessoas com seus saberes, seja nas redes sociais, nos podcasts, nas salas de aula, nas rodas de amigos, onde quer que seja.

Continuarei apostando no bom humor para transitar por esses dois mundos, mas com um recado muito sério: na hora de projetar o espaço onde você vai viver, trabalhar e criar memórias, prefira sempre passar anos estudando a ciência do espaço, em vez de passar apenas alguns minutos editando um filtro para o Instagram. Projetar não é encenação, o resultado do projeto não é cenográfico e quem projeta não deve ser ator. A realidade cobra o preço pela mera influência.

Prof. Neandro Nascimento
Docente do Curso de Arquitetura e Urbanismo do Centro Universitário Ateneu.
Especialista em Ergonomia e Usabilidade e graduado em Design de Interiores. É colunista e conselheiro da Revista DIntBR, conselheiro da Associação Ceará tem Design e integrante do Conselho Acadêmico da Associação Brasileira de Designers de Interiores (ABD).

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