Se Pitágoras voltasse à terra e resolvesse reformar a própria cozinha, é provável que ele saísse correndo, gritando em grego antigo após tentar encaixar um armário planejado em uma parede que insiste em ter o formato de um trapézio escaleno criativo. Como professor universitário e alguém que transita há mais de duas décadas entre a prancheta de desenho, a ergonomia e o pó de gesso de uma obra, confesso: Estamos vivendo uma era em que a linha reta virou artigo de luxo e o esquadro parece ser uma ferramenta mística, guardada a sete chaves por uma seita secreta.
O cenário é recorrente. O projeto executivo sai impecável do computador. Milímetros perfeitamente calculados, folgas técnicas milimetricamente previstas, tomadas alinhadas com a fúria de um suíço relojoeiro. O cliente aprova, os olhos brilham, o sonho ganha forma digital. Mas, quando o caminhão da marcenaria chega à obra para a instalação, a realidade bate à porta, quase sempre torta.
O que acontece entre o “salvar em PDF” e a instalação do móvel planejado costuma ser um thriller de suspense. Paredes que deveriam formar 90 graus redondos decidem abraçar ângulos de 87 ou 93 graus por pura rebeldia geométrica. Tetos e pisos travam uma disputa silenciosa para ver quem desnivela mais, transformando o rodapé em uma escada rústica involuntária.
As empresas de móveis planejados, coitadas, sofrem em dobro. O projetista, no escritório, loja, estúdio ou fábrica, sofre para decifrar as medições “a fio de trena” feitas às pressas; o montador sofre na obra, armado apenas com seu arsenal de ferramentas portáteis, cola P.U., espuma expansiva, calços de madeira deitados e uma paciência de Jó para fazer o móvel “abraçar” a parede torta, em vão, pois, no fim, o que era para ser um encaixe de alta precisão vira uma carpintaria de improviso. E quem paga a conta? O executor, que passa o dobro do tempo suando frio na obra, e o usuário final, que comprou um produto de alto padrão, mas ganhou um acabamento cheio de remendos de silicone, fita de borda e massa (às vezes, tão às pressas que é corrida).
Mas por que chegamos a esse ponto? A resposta passa, inevitavelmente, por nossa formação acadêmica, advindas das salas de aula de Engenharia, Arquitetura e Design. Muitas vezes, porque tratamos o projeto como uma entidade abstrata, quase platônica. O papel aceita tudo, como diria uma professora minha, de esterco a Baudelaire, e a tela do CAD, do Revit, do SketchUp, do Promob… aceita muito mais.
O aluno desenha a linha de cota com precisão de laser, mas raramente é confrontado com a dureza do cimento, com a dilatação térmica ou com o fato prático de que o pedreiro da execução nem sempre tem a mesma intimidade com a tolerância milimétrica que o software possui. Falta, em grande medida, a ponte pedagógica entre o desenho técnico rigoroso e a cultura de canteiro. Ensinamos a projetar o ideal, mas esquecemos de preparar o futuro profissional para lidar com o real.
O estudante sai da faculdade sabendo renderizar texturas hiper-realistas, mas, às vezes, desconhece a importância vital de um bom gabarito, de conferir esquadros antes de fechar o contrapiso ou de exigir que a alvenaria venha no prumo antes do revestimento. Isso impacta na formação de um profissional projetista que desconhece a tolerância construtiva. Ele projeta armários justos demais para paredes tortas demais. E quando o executor desconhece o projeto, ele executa paredes tortas porque “sempre foi assim”.
Como ergonomista, olho para isso e vejo não apenas um problema estético ou geométrico, mas um verdadeiro estressor ergonômico e humano. Pensemos nos outros impactos para o montador e o executor, onde existe o esforço físico extra, a frustração de ter que reajustar peças na marra, o desgaste emocional e o risco de lesões por sobrecarga ao tentar forçar materiais que não foram feitos para se curvar. Para o cliente (usuário), quando a angústia de ver a casa dos sonhos tomada por frestas, portas que empenam, porque o batente está torcido, e gavetas que emperram porque a caixa perdeu o esquadro estrutural; e no impacto, no mínimo, financeiro para empresas do ramo, que perdem seus lucros resolvendo os chamados “buchos”, trocando peças que são descartadas pela inadequação à montagem instalação.
A responsabilidade técnica não é apenas assinar uma Anotação de Responsabilidade Técnica (ART) ou um Registro de Responsabilidade Técnica (RRT). É garantir que a cadeia inteira funcione. É entender que a precisão de um desenho técnico é um ato de respeito com quem vai construir e com quem vai habitar. Precisamos resgatar o rigor técnico sem perder o fôlego e o bom humor que tornam nossa profissão apaixonante. Na academia, precisamos descer do pedestal digital e levar os alunos para perto da obra real, mostrando que um bom desenho técnico não é aquele “bonito na prancha”, apenas, mas aquele que antecipa o erro, acolhe as imperfeições toleráveis da construção civil e protege o cliente do caos.
Na prática profissional, cabe a nós – arquitetos, engenheiros e designers – resgatar o diálogo com os executores. Menos culpa recíproca (a culpa nunca é exclusiva da marcenaria ou exclusiva da alvenaria) e mais integração de processos. Afinal de contas, a beleza de um espaço bem projetado não está apenas na harmonia das cores ou na nobreza dos materiais, mas na paz de espírito de saber que, se você pendurar um quadro na parede, ele não vai parecer estar navegando em mar agitado. Que tal começarmos a cobrar prumos e níveis de volta, já na concepção dos projetos executivos? Pitágoras agradece.
Prof. Neandro Nascimento
Docente do Curso de Engenharia Civil do Centro Universitário Ateneu.
Especialista em Ergonomia e Usabilidade e graduado em Design de Interiores. É colunista e conselheiro da Revista DIntBR, conselheiro da Associação Ceará tem Design e integrante do Conselho Acadêmico da Associação Brasileira de Designers de Interiores (ABD).
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