A negligência na investigação do histórico medicamentoso de pacientes com doenças crônicas antes da administração de anestésicos locais pode desencadear reações adversas graves e comprometer a segurança clínica. A segurança do paciente odontológico vai além da técnica cirúrgica e exige um olhar aprofundado sobre as interações farmacológicas, especialmente, entre os vasoconstritores presentes nos cartuchos anestésicos e as medicações de uso contínuo.
Com o envelhecimento populacional e o aumento na prevalência de doenças crônicas não transmissíveis, a polifarmácia tornou-se um fenômeno inerente à prática clínica contemporânea [1]. A maioria dos pacientes que buscam atendimento odontológico utiliza pelo menos uma medicação diariamente, chegando a dois a cinco medicamentos prescritos por ano, elevando exponencialmente o risco de efeitos adversos.
Estudos indicam que o risco de reações adversas salta de 13% para o uso de dois medicamentos para 58% com o uso de cinco fármacos, e atinge 82% quando sete ou mais fármacos são administrados simultaneamente [1]. Essa realidade exige que o cirurgião-dentista atue como um profissional de saúde integral, capaz de identificar potenciais conflitos entre os fármacos prescritos na Odontologia e a rotina terapêutica do paciente.
A hipertensão arterial, as doenças cardíacas e o diabetes mellitus são as condições crônicas mais prevalentes encontradas no consultório odontológico [1]. Nesses pacientes, o uso de anestésicos locais associados a vasoconstritores, como a epinefrina, é frequentemente alvo de discussões e incertezas. Embora a epinefrina atue, principalmente, como um vasoconstritor periférico e não atravesse a barreira hematoencefálica, a sua administração exógena pode causar elevações transitórias na pressão arterial e aumento da frequência cardíaca [3].
O uso de uma a duas carpulas de anestésico contendo epinefrina em concentrações padronizadas (1:80.000 a 1:200.000) tem se mostrado seguro para pacientes com hipertensão controlada, desde que respeitado o limite máximo de 0,036 mg de epinefrina por sessão [4]. No entanto, as interações medicamentosas ocorrem de forma sutil e perigosa. Por exemplo, o uso concomitante de anti-hipertensivos como betabloqueadores não seletivos pode potenciar o efeito da epinefrina, levando a crises hipertensivas reflexas e bradicardia severa [2].
Além disso, a administração de outros fármacos comuns na Odontologia, como os anti-inflamatórios não esteroides (Aines), também representa um risco considerável. O uso de Aines por pacientes hipertensos reduz significativamente o efeito anti-hipertensivo das medicações convencionais, dificultando o controle pressórico perioperatório e aumentando o risco de eventos cardiovasculares agudos durante procedimentos dentários [4].
Uma análise detalhada de interações medicamentosas em pacientes idosos no contexto odontológico revelou que, de 212 interações medicamentosas avaliadas, 9,9% foram classificadas como de risco grave e 68,3% como moderadas [1]. Esses dados demonstram que a maioria das interações não é apenas teórica, mas clinicamente relevante, exigindo monitoramento e, em muitos casos, ajustes de protocolo.
Portanto, é imperativo que a Odontologia abandone a abordagem reducionista de tratar apenas a cavidade oral. A anamnese deve ir além do check-list superficial, e o cirurgião-dentista deve compreender a fisiologia cardiovascular e renal do paciente. A adoção de ferramentas de verificação de interações medicamentosas e a comunicação direta com o médico assistente do paciente são estratégias que podem mitigar riscos evitáveis.
A responsabilidade clínica sobre os desfechos do tratamento não recai apenas sobre a doença sistêmica, mas também sobre o protocolo farmacológico empregado. Ignorar as interações medicamentosas na anestesiologia odontológica é caminhar por uma tênue linha entre o conforto do paciente e a emergência clínica. É hora de elevar o padrão de segurança, incorporando a farmacologia clínica como pilar central da prática odontológica moderna.
Referências Bibliográficas
[1] Abbaszadeh, E., Ganjalikhan Hakemi, N., Rad, M., & Torabi, M. (2022). Drug-Drug Interactions in Elderly Adults in Dentistry Care: a Cross-Sectional Study. Journal of Dentistry (Shiraz), 23(4), 459–466. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC9883622/,
[2] Janev, N., & Ouanounou, A. (2024). Local anesthetics in oral and maxillofacial medicine: pharmacology, adverse effects, drug interactions and clinical manifestations. Journal of Oral and Maxillofacial Anesthesia (JOMA), 3, e27. https://joma.amegroups.org/article/view/6337/html.
[3] Saraga, M. A., Fotopoulos, I., Zisis, V., Poulopoulos, A., Dabarakis, N., & Lillis, T. (2025). Pharmacological Interactions of Epinephrine at Concentrations Used in Dental Anesthesiology: An Updated Narrative Review. Reports, 8(4), 224. https://www.mdpi.com/2571-841X/8/4/224.
[4] Gupta, K., Kumar, S., Kukkamalla, M. A., Taneja, V., Syed, G. A., Pullishery, F., Zarbah, M. A., Alqahtani, S. M., Alobaoid, M. A., & Chaturvedi, S. (2022). Dental Management Considerations for Patients with Cardiovascular Disease—A Narrative Review. Reviews in Cardiovascular Medicine, 23(8), 261. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11266964/.
Prof. Me. Pedro Jessé Lima Veras
Docente do Curso de Odontologia do Centro Universitário Ateneu.
Doutorando em Biotecnologia, mestre em Odontologia, especialista em Odontopediatria e graduado em Odontologia.
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