O habitar além do olhar: a trindade entre o sensível, o traço e o espaço

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Projetar uma residência é um ato de tradução. O cliente entrega ao designer um emaranhado de desejos, memórias, sentimentos, sensações e necessidades pragmáticas, e nós precisamos converter isso em espaços, no mínimo, funcionais, sensoriais e belos, que representem os seus usuários. Contudo, entre o desejo do cliente e a elaboração do briefing, muitos projetos se perdem na falta de fundamentação teórica sobre como percebemos o mundo.

Nesse recorte, para evitar que o design de interiores se torne apenas uma curadoria de catálogos, precisamos resgatar três pilares: a semiótica (signos, símbolos, significados e significantes), a percepção (linguagem visual e aplicação da teoria da Gestalt/estudo da forma) e a expressão gráfica (desenho analógico e digital).

Não nos enganemos: uma sala de estar não é composta por móveis, mas por mensagens. Como bem aponta Lúcia Santaella, no livro Estética & Semiótica, em 2019, vivemos em uma biosfera de signos. Quando escolhemos um revestimento de pedra bruta para uma parede de destaque, não estamos apenas decidindo a textura; estamos evocando o signo do “natural”, do “atávico” ou do “rústico chique”.

Em projetos de design de interiores residenciais, os objetos são signos multivalentes, agregando função simbólica, função estética e função prática. Nesse sentido, já pode-se aliar interdisciplinaridade entre semiótica e ergonomia, além da Psicologia, no âmbito da percepção.

Como propunha Roland Barthes, em seu livro Mitologias de 1957, existe a denotação (uma cadeira serve para sentar) e a conotação (aquela cadeira específica de design assinado diz quem eu sou ou quem eu pretendo ser). É como se necessitamos, continuamente, da reflexão sobre as definições do que é cada objeto e buscássemos, como em um dicionário, aplicação destas nos projetos, de acordo com as subjetividades e ideologias de quem usa, para que erros de sintaxe espacial não sejam cometidos – como colocar um lustre clássico de cristal em um ambiente que grita minimalismo industrial, a menos que o objetivo seja a ironia deliberada. Afinal, uma casa sem semiótica é como uma piada sem punchline: as palavras estão lá, mas ninguém entende a graça.

A expressão gráfica, seja ela analógica (tão significativa no ato de criação e no esclarecimento de dúvidas, de viés visual) ou digital (representando a foto do que ainda não existe e a técnica da execução da obra) é o local onde conceitos se entrelaçam no imagético, trazendo à tona a representação da ideia e dos ideais.

Desenvolver projetos residenciais hoje exige entender a casa como um organismo híbrido: trabalho, lazer e descanso colapsaram no mesmo metro quadrado. Dominar a linguagem visual, os princípios da Gestalt e a destreza do desenho não é um luxo acadêmico; é a única forma de garantir que o design de interiores seja uma resposta ética e estética às complexidades do morar contemporâneo. No fim das contas, o bom design é aquele que o morador entende sem precisar de legenda, sente sem esforço e habita com prazer. Se encontra aprovação… Bravo! Que belo! Se não… Pena! Voltamos ao zero!

Prof. Neandro Nascimento
Docente do Curso de Design de Interiores do Centro Universitário Ateneu.
Especialista em Ergonomia e Usabilidade e graduado em Design de Interiores. É colunista e conselheiro da Revista DIntBR, conselheiro da Associação Ceará tem Design e integrante do Conselho Acadêmico da Associação Brasileira de Designers de Interiores (ABD).

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