A promessa de democratização do conhecimento e do monitoramento contínuo esbarra na necessidade urgente de regulação ética, proteção de dados e alfabetização digital crítica, para que a m-health não reproduza, em novas plataformas, as antigas assimetrias de poder e acesso que historicamente desafiam a efetivação do direito universal à saúde. Portanto, mais do que adotar tecnologias, o nosso desafio é politizá-las, construindo marcos que garantam que os seus benefícios sejam coletivos e orientados pela equidade, integralidade e justiça social
A integração da m-health na Fisioterapia representa uma transformação paradigmática que desloca o locus do cuidado do espaço clínico restrito para o cotidiano e o território vivido do paciente. Esta migração, mediada por aplicativos, wearables e plataformas de telemonitoramento, potencializa tremendamente a continuidade do cuidado, a adesão aos exercícios domiciliares e a corresponsabilização na reabilitação.
No entanto, como pesquisador atento aos determinantes sociais da saúde, é imperativo problematizar essa expansão. A efetividade dessas tecnologias pressupõe acesso digital estável, familiaridade tecnológica e literacia em saúde, requisitos que podem aprofundar desigualdades, excluindo justamente as populações mais vulneráveis e com maior carga de doenças crônico-degenerativas.
Para a construção do presente artigo de opinião, adotou-se um método fundamentado na articulação progressiva e crítica de ideias. Inicialmente, parte-se da definição clara de uma tese central, expressa de forma assertiva e problematizadora, a qual serve como eixo norteador de toda a reflexão. Em seguida, realiza-se uma contextualização sócio-histórica ou conceitual do tema, com o objetivo de situar o leitor quanto à sua relevância e complexidade.
O desenvolvimento do texto segue uma lógica dialética, na qual se apresentam e se confrontam perspectivas distintas, utilizando-se de evidências empíricas, dados consolidados ou referências teóricas para sustentar cada movimento argumentativo. Essa abordagem não apenas aprofunda a análise, como também demonstra a consciência acerca da multiplicidade de olhares que envolvem a questão em debate.
Portanto, a reflexão empreendida demonstra que a m-health na Fisioterapia, como fenômeno tecnossocial, encerra uma dualidade intrínseca: é vetor de potentes inovações para a reabilitação continuada e autogerida, mas também é espelho das desigualdades estruturais que permeiam a nossa sociedade.
O futuro desejável passa, assim, pela construção de modelos híbridos de prática, onde o vínculo terapêutico presencial e o julgamento clínico especializado orientem e deem sentido ao uso das tecnologias digitais, assegurando que a promessa de inovação se cumpra como um passo firme em direção a uma Fisioterapia mais acessível, integral e verdadeiramente equitativa.
Prof. Dr. Cesário Rui Callou Filho
Docente do Curso de Fisioterapia do Centro Universitário Ateneu.
Doutor e mestre em Saúde Coletiva, especialista em Fisioterapia em Terapia Intensiva, em Anatomia Funcional, em Fisioterapia Cardiorrespiratória, em Educação na Saúde para Preceptores do Sistema Único de Saúde (SUS) e em Saúde Pública e graduado em Fisioterapia.
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