Indicadores assistenciais como estratégia para reduzir eventos adversos na UTI

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A Unidade de Terapia Intensiva (UTI) é um ambiente de elevada complexidade, no qual pacientes clinicamente instáveis são submetidos a procedimentos invasivos, terapias de alto risco e monitoramento contínuo. Nesse cenário, falhas assistenciais podem resultar em infecções relacionadas à assistência, erros de medicação, lesões por pressão, quedas, extubações não planejadas e perdas acidentais de dispositivos.

Diante dessa realidade, a redução de eventos adversos não pode depender exclusivamente da competência individual dos profissionais, mas de um sistema organizado de gestão da qualidade e segurança. Para tanto, faz-se necessário a utilização de indicadores assistenciais, os quais são instrumentos essenciais para uma gestão da qualidade e segurança do paciente, visto que eles transformam dados do cuidado em informações úteis para a tomada de decisão.

A principal contribuição dos indicadores consiste em tornar visíveis situações que poderiam permanecer interpretadas como ocorrências isoladas. O aumento das lesões por pressão, por exemplo, pode indicar fragilidades na avaliação do risco, na mudança de decúbito, na disponibilidade de superfícies de suporte ou no dimensionamento da equipe. Da mesma forma, o crescimento das infecções associadas a dispositivos pode revelar falhas na higiene das mãos, na manutenção dos cateteres ou na avaliação diária da necessidade de permanência desses dispositivos.

Buchberger et al. (2026) demonstraram que indicadores sentinela podem auxiliar na identificação de eventos adversos graves. No estudo, 63,5% dos eventos identificados foram considerados potencialmente evitáveis, enquanto o conjunto de indicadores apresentou valor preditivo positivo de 78,5% para detectar pelo menos um evento adverso. Esses resultados confirmam que indicadores bem definidos podem direcionar auditorias, análises de prontuários e ações de gerenciamento de riscos.

Entretanto, medir não é suficiente. O indicador somente produz melhoria quando está associado à análise das causas e à implementação de intervenções. Uma taxa de pneumonia associada à ventilação mecânica, por exemplo, deve ser examinada conjuntamente com a adesão à higiene oral, elevação da cabeceira, avaliação diária da sedação e possibilidade de extubação. Assim, a gestão acompanha tanto o evento ocorrido quanto o cumprimento das práticas destinadas a preveni-lo.

A notificação de incidentes também deve integrar o sistema de indicadores. Gqaleni, Mkhize e Chironda (2024) destacam que diretrizes estruturadas de notificação e aprendizagem contribuem para orientar a prática clínica e reduzir danos evitáveis. A Enfermagem ocupa posição estratégica nesse processo, pois permanece continuamente ao lado do paciente e frequentemente identifica os primeiros sinais de deterioração clínica.

Uma revisão conduzida por Chen et al. (2025) identificou percepções positivas dos enfermeiros de UTI sobre o trabalho em equipe, mas evidenciou fragilidades relacionadas ao dimensionamento de pessoal e à comunicação dos erros. Portanto, os profissionais de Enfermagem devem participar da definição, coleta, análise e discussão dos indicadores. As condições de trabalho também precisam ser avaliadas.

De acordo com o estudo de Li et al. (2024), envolvendo 85 estudos, encontrou associação entre esgotamento dos enfermeiros, menor qualidade assistencial e piores resultados de segurança. Indicadores de absenteísmo, rotatividade, carga de trabalho e dimensionamento devem, portanto, integrar o painel da UTI. Conclui-se que os indicadores não são apenas números ou exigências administrativas, mas instrumentos de governança clínica.

Quando analisados sistematicamente, discutidos pela equipe multiprofissional e associados a planos de ação, permitem identificar riscos, avaliar protocolos e promover aprendizagem contínua. Reduzir eventos adversos na UTI exige medir com rigor, interpretar com responsabilidade e transformar resultados em práticas assistenciais mais seguras.

Referências Bibliográficas

BUCHBERGER, W. et al. The value of sentinel indicators for detecting serious adverse events in hospital care. Journal of Patient Safety, v. 22, n. 2, p. 93–100, 2026.

DOI: 10.1097/PTS.0000000000001429. CHEN, X. et al. Nurses’ perceptions of patient safety culture in intensive careunits: a systematic review and meta-analysis. Nursing in Critical Care, 2025. DOI: 10.1111/nicc.70138.

GQALENI, T. M.; MKHIZE, S. W.; CHIRONDA, G. Patient safety incident reporting and learning guidelines implemented by health care professionals in specialized care units: scoping review. Journal of Medical Internet Research, v. 26, e48580, 2024. DOI: 10.2196/48580.

LI, L. Z. et al. Nurse burnout and patient safety, satisfaction, and quality of care: a systematic review and meta-analysis. JAMA Network Open, v. 7, n. 11, e2443059, 2004, DOI: 10.1001/jamanetworkopen.2024.43059.

Profª. Drª. Ana Cleide Silva Rabelo
Docente do Curso de Enfermagem do Centro Universitário Ateneu.
Doutora e mestra em Cuidados Clínicos em Enfermagem e Saúde, especialista em Terapia Intensiva para Enfermeiros e Fisioterapeutas e Enfermagem Cardiovascular e graduado em Enfermagem.

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