Entre sintomas e histórias: o que estamos ensinando sobre sofrimento psíquico?

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No contexto da formação em Psicologia, especialmente, no campo clínico, tem sido cada vez mais frequente observar a predominância de uma leitura patologizante do sofrimento humano. Estudantes, ainda em fase inicial de contato com a prática, tendem a recorrer rapidamente a classificações diagnósticas ao se depararem com manifestações de angústia, tristeza, ansiedade ou desorganização emocional.

Expressões como “transtorno de ansiedade generalizada” ou “episódio depressivo” tornam-se, muitas vezes, os primeiros recursos utilizados para compreender aquilo que, em sua essência, é marcado por singularidade e complexidade. Essas falas, por vezes, surgem antes mesmo que o estudante tenha tido a oportunidade de realmente escutar a história daquela pessoa.

A cena se repete com frequência: diante de um sofrimento que escapa à lógica do cotidiano, a tendência imediata é nomear, enquadrar, diagnosticar. Mas o que isso revela sobre a forma como temos formado nossos futuros psicólogos? E mais profundamente: o que estamos ensinando sobre o sofrimento psíquico?

A medicalização da vida, tema que atravessou a minha pesquisa de mestrado, se manifesta exatamente assim: em pequenas práticas cotidianas que transformam experiências humanas complexas em categorias clínicas. O que antes poderia ser entendido como uma crise existencial, um luto, uma ruptura no sentido da vida, passa a ser imediatamente lido como um transtorno a ser tratado.

Em sala de aula e nos estágios, percebo o quanto essa lógica está presente não apenas nos discursos, mas também nos afetos: o mal-estar precisa ser resolvido, controlado e eliminado. Pouco se fala sobre o que ele pode estar tentando comunicar. Essa tendência não nasce do acaso. Ela é alimentada por uma cultura que tem dificuldade de lidar com o sofrimento e que, por isso, busca caminhos rápidos e padronizados para silenciá-lo.

No campo da saúde mental, isso se traduz no uso crescente de classificações diagnósticas e intervenções protocoladas. No entanto, quando isso se torna o centro da formação em Psicologia, perdemos algo essencial: a possibilidade de escutar o outro em sua singularidade, de acolher a complexidade da experiência humana sem reduzi-la a um código do DSM.

É preciso, portanto, refletir sobre o que temos ensinado, direta ou indiretamente, aos futuros profissionais da Psicologia. Ao priorizar abordagens centradas no diagnóstico e na normatização do comportamento, corremos o risco de reduzir a complexidade do sofrimento psíquico a meras categorias nosológicas, negligenciando o potencial ético e clínico da escuta, da presença e do acolhimento da experiência vivida.

Este texto, portanto, não se propõe a oferecer respostas prontas, tampouco a negar a importância do conhecimento técnico e diagnóstico na prática psicológica. Trata-se, antes, de um convite à reflexão cotidiana sobre os modos como temos compreendido e manejado o sofrimento humano, tanto em nossa atuação profissional quanto em nossas vivências pessoais.

Em uma sociedade que valoriza a produtividade, o controle e a performance, lidar com a fragilidade (nossa e do outro) exige coragem, escuta e disponibilidade para habitar o desconforto sem imediatamente classificá-lo ou silenciá-lo. Refletir sobre a medicalização é, nesse sentido, também refletir sobre a forma como nos relacionamos com aquilo que nos escapa: a dor, a dúvida, o vazio e a complexidade da existência.

Profª. Bruna Myrla Ribeiro Freire
Docente do Curso de Psicologia do Centro Universitário Ateneu.
Mestranda em Psicologia, especializanda em Docência no Ensino Superior, especialista em Saúde Mental e graduada em Psicologia

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