Delimitação do problema de pesquisa

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O primeiro problema que se põe ao investigador é o de saber como começar bem o seu trabalho […]. O receio de iniciar mal o trabalho pode levar algumas pessoas a dar voltas durante bastante tempo, a procurar uma segurança ilusória numa das formas de fuga para frente que abordamos, ou ainda a renunciar pura e simplesmente ao projeto (QUIVY; CAMPENHOUDT, 1996, p. 3).

Portanto, o processo de formular um problema não é tarefa fácil. Há de se reconhecer que o treinamento desempenha papel importante nesse processo. O treinamento é uma atividade que exige dedicação e orientação, e considerando o ato de formular um problema, o treinamento ainda é pouco explorado, visto que a atividade de formular um problema é restrita ao meio acadêmico (GOMIDE, 2002, p. 7).

Este documento no formato de um texto curto irá ajudar a você a formular o seu objeto de pesquisa/problema de pesquisa/pergunta de partida, entendendo que podemos nomeá-las a partir do que foi dito anteriormente.

A formulação do problema prende-se ao tema proposto: ela esclarece a dificuldade específica com a qual nos defrontamos e que pretendemos resolver por intermédio da pesquisa. Para ser cientificamente válido, um problema deve passar pelo crivo das questões seguintes (PRODANOV; FREITAS, 2013, p. 121):

O problema:

– Pode ser enunciado em forma de pergunta?

– Corresponde a interesses pessoais (capacidade), sociais e científicos, isto é, de conteúdo e metodológicos? Esses interesses estão harmonizados?

– Constitui-se o problema em questão científica, ou seja, relacionam-se entre si pelo menos duas variáveis?

– Pode ser objeto de investigação sistemática, controlada e crítica?

– Pode ser empiricamente verificado em suas consequências?

Formulação do problema:

– Esclarecer a questão de pesquisa e definir o problema – O quê? Como?

– Observar: viabilidade, relevância, novidade, exequibilidade e oportunidade.

A formulação do problema deve ser interrogativa, clara, precisa e objetiva; possuir solução viável; expressar uma relação entre duas ou mais variáveis; ser fruto de revisão de literatura e reflexão pessoal (PRODANOV; FREITAS, 2013, p. 122). Um problema deve ser formulado como pergunta, pois esta é a maneira mais fácil e direta de formular um problema. O ato de estruturar perguntas possibilita identificar o cenário que envolve o tema, aquilo que se quer pesquisar. A pergunta atua como um vetor orientando o caminho, os métodos a serem utilizados no decorrer do trabalho (GOMIDE, 2002, p. 8).

O problema, assim, consiste em um enunciado explicitado de forma clara, compreensível e operacional, cujo melhor modo de solução ou é uma pesquisa ou pode ser resolvido por meio de processos científicos (PRODANOV; FREITAS, 2013, p. 122). Um problema deve ser claro e preciso. Estando como tema já delimitado, conhecendo os passos de como formular um problema, é preciso ficar atento para estruturar a pergunta referente ao problema, e que ela atenda aos requisitos, ser e clara e precisa. Clara, estabelecendo o que se pretende pesquisar e precisa identificando os elementos e instrumentos que serão utilizados no decorrer do trabalho (GOMIDE, 2002, p. 8).

O problema deve ser empírico. Os problemas de pesquisa não devem envolver valores, julgamentos morais e considerações subjetivas, ponto este que invalida a pesquisa cientifica (GOMIDE, 2002, p. 8). O conjunto das qualidades (descritas logo mais) requeridas pode resumir-se em algumas palavras: Uma boa pergunta de partida deve e pode ser tratada. Isto significa que se deve e pode trabalhar eficazmente a partir dela, e em particular deve ser possível fornecer elementos para lhe responder. Estas qualidades têm de ser pormenorizadas. São elas (QUIVY; CAMPENHOUDT, 1996, p. 5-8):

As qualidades de clareza dizem essencialmente respeito à precisão e à concisão do

modo de formular a pergunta de partida. Por exemplo:

– Pergunta 1: Qual é o impacte das mudanças na organização do espaço urbano sobre a

vida dos habitantes?

– Comentário: Esta pergunta é demasiada vaga. Em que tipos de mudanças se pensa? O que se entende por “a vida dos habitantes”?

Resumindo, para poder ser tratada, uma boa pergunta de partida terá de ser precisa. As qualidades de exequibilidade estão essencialmente ligadas ao caráter realista ou irrealista do trabalho que a pergunta deixa entrever. Por exemplo:

– Pergunta 2: Os dirigentes empresariais dos diferentes países da Comunidade Europeia têm uma percepção idêntica da concorrência econômica dos Estados Unidos e do Japão?

– Comentário: Se pode dedicar pelo menos dois anos inteiros a esta investigação, se dispõe de um orçamento de vários milhões e de colaboradores competentes, eficazes e poliglotas, terá, sem dúvida, uma certa possibilidade de realizar este tipo de projeto e de obter resultados suficientemente pormenorizados para terem alguma utilidade. Senão, é preferível restringir as suas ambições.

Resumindo, para poder ser tratada, uma boa pergunta de partida deve ser realista, isto é, adequada aos recursos pessoais, materiais e técnicos em cuja necessidade podemos

imediatamente pensar e com que podemos razoavelmente contar. As qualidades de pertinência dizem respeito ao registro (explicativo, normativo, preditivo, dentre outros) em que se enquadra a pergunta de partida.

– Pergunta 3: A forma como o fisco está organizado no nosso país é socialmente justa?

– Comentário: Esta pergunta não tem evidentemente como objetivo analisar o funcionamento do sistema fiscal, mas sim julgá-lo no plano moral, o que constitui um procedimento completamente diferente, que não diz respeito às ciências sociais. A confusão entre estes dois pontos de vista diferentes é muito usual e nem sempre é fácil de detectar.

Resumindo, uma boa pergunta de partida não deverá ser moralizadora. Não procurará julgar, mas sim compreender. A delimitação do tema é uma fase muito importante da construção do objeto, pois ela resvala na determinação do que será o problema foco da pesquisa. Ao proceder ao recorte do tema, o proponente deve ter clareza quanto aos limites geográficos, espaciais e sociais de sua proposta de trabalho (ARAÚJO; PIMENTA; COSTA, 2015, p. 177).

Em síntese, o problema deverá ser constituído a partir do tema proposto, esclarecendo a dificuldade específica com a qual nos defrontamos e que pretendemos resolver com a pesquisa. A escolha do tema representa a demarcação de um campo de estudo dentro de uma grande área do conhecimento, logo sua delimitação significa um afunilamento em relação à visão geral do tema para, a partir disso, se fazer um questionamento. Esse movimento dará início à formulação do objetivo geral da pesquisa, que deverá dialogar intimamente com a questão norteadora do trabalho (ARAÚJO; PIMENTA; COSTA, 2015, p. 177).

Para melhor sedimentar este conhecimento, sugiro que vocês possam acessar na íntegra os textos que se encontram nas referências deste documento, bem como outras referências que serão sugeridas pelo (a) professor (a) da disciplina.

Bons estudos!

* Este texto foi elaborado pelo prof. Dr. Carlos André Moura Arruda a partir de excertos retirados dos textos contidos nas referências abaixo. Assim, contém, na íntegra, citações diretas.

REFERÊNCIAS:

GOMIDES, José Eduardo. A definição do problema de pesquisa a chave para o sucesso do projeto de pesquisa. Revista do Centro de Ensino Superior de Catalão – CESUC, Ano IV, nº 06, 1º Semestre, 2002.
QUIVY, Raymond; CAMPENHOUDT, Luc Van. A pergunta de Partida. In: Manual de Investigação em Ciências Sociais. Lisboa, Ed. Gradiva. 1996.
PRODANOV, Cleber Cristiano; FREITAS, Ernani Cesar de. Metodologia do trabalho científico [recurso eletrônico]: métodos e técnicas da pesquisa e do trabalho acadêmico. 2. ed. Novo Hamburgo: Feevale, 2013.
ARAUJO, Júlio; PIMENTA, Alcilene Aguiar; COSTA, Sayonara. A proposta de um quadro norteador de pesquisa como exercício de construção do objeto de estudo. Interações (Campo Grande), Campo Grande, v. 16, n. 1, p. 175-188, June 2015.

Prof. Dr. Carlos André Moura Arruda
Docente do Curso de Nutrição do Centro Universitário Ateneu
Doutor em Saúde Coletiva, mestre em Saúde Pública, especialista em Educação Comunitária em Saúde e em Pesquisa Científica e graduado em Pedagogia.

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