A Inteligência Artificial e o Design de Moda: Por que formar designers hoje significa ensinar muito mais do que Moda?

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Nos últimos anos, a Inteligência Artificial deixou de ser uma promessa para tornar-se uma realidade na indústria da Moda. Hoje, ela participa da criação de estampas, auxilia no desenvolvimento de coleções, analisa tendências, prevê demandas, gera imagens publicitárias e personaliza experiências de compra. O relatório The State of Fashion 2025, da McKinsey & Company em parceria com a The Business of Fashion, demonstra que a Inteligência Artificial Generativa já ocupa posição estratégica nas decisões das principais empresas do setor.

Essa transformação pode parecer distante, mas já faz parte do nosso cotidiano. Sempre que recebemos recomendações personalizadas em lojas virtuais, utilizamos provadores digitais ou interagimos com campanhas produzidas com auxílio de Inteligência Artificial, estamos diante de uma nova forma de pensar e produzir moda.

Grandes marcas confirmam esse movimento. A H&M passou a utilizar “gêmeos digitais” de modelos para apoiar campanhas publicitárias. A Zara também incorporou soluções baseadas em Inteligência Artificial para acelerar processos criativos e otimizar conteúdos visuais. Em nenhum desses casos a tecnologia substituiu as equipes criativas. Ela ampliou a sua capacidade de experimentar, testar possibilidades e ganhar eficiência.

Na minha atuação como professora e consultora, essa realidade também está presente. No Grupo Pense, utilizamos um avatar desenvolvido com Inteligência Artificial para apresentar conteúdos previamente pesquisados, escritos e revisados por mim quando a rotina não permite novas gravações. O avatar reproduz a minha imagem e a minha voz, mas não substitui aquilo que realmente importa: o conhecimento, a análise crítica, a experiência e a responsabilidade sobre cada informação compartilhada. Essa vivência reforçou uma convicção que tenho construído ao longo de anos de sala de aula.

O diferencial do designer já não é apenas saber fazer. É saber pensar. Durante muito tempo, acreditava-se que um bom designer era aquele que dominava técnicas. Hoje, as técnicas podem ser aprendidas por pessoas e executadas, em parte, por tecnologias. O verdadeiro diferencial passou a estar na capacidade de interpretar comportamentos, compreender contextos culturais, conectar conhecimentos, fazer perguntas relevantes e transformar problemas complexos em soluções com significado.

A Inteligência Artificial organiza dados. O designer produz sentido. Enquanto os algoritmos trabalham a partir de informações existentes, o ser humano cria relações inéditas, interpreta emoções, identifica oportunidades e imagina futuros possíveis. É justamente essa capacidade que transforma moda em cultura, produtos em experiências e marcas em conexões duradouras.

Essa compreensão encontra respaldo em diferentes autores. Klaus Schwab (2016) demonstra que a Quarta Revolução Industrial redefine profissões ao integrar tecnologias digitais, físicas e biológicas. Tim Brown (2010) defende que o design nasce da empatia e da compreensão das necessidades humanas. João Braga (2019) mostra que toda inovação tecnológica transformou a moda sem eliminar o papel criativo do designer. Roland Barthes (2009) compreende a moda como um sistema de significados, enquanto Kate Darling (2021) propõe uma relação colaborativa entre pessoas e Inteligência Artificial.

É por isso que acredito que o maior compromisso das instituições de ensino superior não seja apenas ensinar novas ferramentas. Ferramentas mudam rapidamente. O verdadeiro papel da universidade é desenvolver profissionais capazes de aprender continuamente, pensar criticamente, agir com ética e transformar conhecimento em inovação.

Na UniAteneu, entendemos que formar designers de moda é formar profissionais preparados para liderar mudanças, e não apenas acompanhá-las. Significa desenvolver pessoas capazes de utilizar a tecnologia com inteligência, criatividade e responsabilidade, sem perder aquilo que continuará sendo exclusivamente humano: a capacidade de atribuir significado às suas criações.

A Inteligência Artificial continuará evoluindo. Mas o futuro da Moda continuará sendo construído por pessoas capazes de observar o mundo, compreender as necessidades da sociedade e transformar ideias em soluções. Porque tecnologias podem acelerar processos, mas são as pessoas que continuam dando sentido à inovação.

Referências Bibliográficas

BARTHES, Roland. O sistema da moda. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2009.
BRAGA, João. História da moda: uma narrativa. 11. ed. São Paulo: Anhembi Morumbi, 2019.
BROWN, Tim. Design Thinking: uma metodologia poderosa para decretar o fim das velhas ideias. Rio de Janeiro: Elsevier, 2010.
DARLING, Kate. The New Breed: What Our History with Animals Reveals about Our Future with Robots. New York: Henry Holt and Company, 2021.
MCKINSEY & COMPANY; THE BUSINESS OF FASHION. The State of Fashion 2025: Challenges at Every Turn. London: McKinsey & Company; The Business of Fashion, 2024.
SCHWAB, Klaus. A Quarta Revolução Industrial. São Paulo: Edipro, 2016.
MCKINSEY & COMPANY; THE BUSINESS OF FASHION. The State of Fashion 2025: Challenges at Every Turn. London: McKinsey & Company; The Business of Fashion, 2024. Disponível em: https://www.mckinsey.com/industries/retail/our-insights/the-state-of-fashion-2025. Acesso em: 30 jul. 2026.
LIPOVETSKY, Gilles. O império do efêmero: a moda e seu destino nas sociedades modernas. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

Profª. Ma. Fernanda Farias Vasconcelos Kreitlow
Docente do Curso de Design de Moda do Centro Universitário Ateneu.
Doutoranda em Design de Moda, mestra em Gestão de Negócios Turísticos, especialista em Styliste Coloriste Infographiste, graduanda em Artes e graduada em Design de Moda.

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