Basta cruzar a porta de qualquer escola ou universidade hoje para sentir a mudança no ar. A atmosfera pesa. E engana-se quem acha que isso é só o reflexo de vozes cansadas após horas explicando História ou Matemática. A estafa atual é de outra natureza. Ela esmaga o lado emocional, consome a paciência na burocracia e, no limite, seca a própria vontade de lecionar. O que está adoecendo quem está à frente do quadro? A resposta é amarga: o conhecimento virou produto. E quem ensina foi rebaixado a um simples entregador dessa encomenda.
Essa lógica do “aluno-cliente” não caiu do céu. Foi ganhando terreno mansamente, até engolir por completo o que chamávamos de relação pedagógica. A mentalidade corporativa tomou as rédeas da sala de aula. Boa parte das famílias e dos próprios estudantes já não procura exatamente o desenvolvimento intelectual. O que se espera agora é um pacote de conveniências. Um serviço que ofereça zero atrito, muito conforto e, de preferência, nenhuma frustração no meio do caminho.
Bateu de frente com um conteúdo complexo? A nota escorregou? A regra foi aplicada? Pronto, o “consumidor” vai direto ao balcão da coordenação exigir os seus direitos. O trabalho de anos de um professor agora é julgado com a mesma pressa de quem avalia uma corrida de aplicativo ou a entrega de uma pizza. Aprender deixou de ser o alvo; o que importa é manter o índice de satisfação no verde.
Sobra para o educador segurar essa bomba. A tal emergência do trabalho docente –um tema que muita gente prefere varrer para debaixo do tapete – é o reflexo de uma categoria asfixiada pelo mercado. Exige-se que o mestre seja, ao mesmo tempo, um showman de auditório, um psicólogo de plantão e um preenchedor compulsivo de planilhas. A famosa “flexibilização” que os gestores tanto aplaudem, na prática, é apenas o sucateamento da profissão maquiado com nomes bonitos. Simplesmente não tem como a conta fechar.
É humanamente impossível lidar com montanhas de papelada, responder mensagens de pais no domingo à tarde e, no dia seguinte, entregar uma aula cinematográfica para entreter a clientela. O professor perdeu o comando. Tiraram dele a liberdade de exigir mais leitura, de cobrar rigorosamente. Afinal, qualquer desconforto gerado ao estudante-cliente é interpretado lá em cima como um péssimo negócio. O detalhe que esqueceram é que aprender dói um pouco. Exige atrito. Envolve a frustração de errar e o tempo arrastado que o cérebro leva para digerir ideias novas.
Nada disso entra no cardápio desse fast-food educacional que tomou conta de tudo. Frear esse colapso exige coragem para peitar uma realidade exaustiva: o volume absurdo de burocracia que afoga o educador, somado a alunos que não toleram ser contrariados e a famílias que cobram dos professores como se fossem gerentes de atendimento. Se continuarmos reféns dessa dinâmica, o surto de esgotamento nas salas dos professores vai acabar custando o futuro de uma geração inteira.
Precisamos olhar para o aluno como alguém em construção, não como um comprador de comodidade. E o professor tem que voltar a ser o parceiro intelectual dessa jornada, longe do papel de mero prestador de serviço apavorado com avaliações. A verdadeira educação, aquela que abre cabeças e emancipa, precisa de espaço, de erro, de diálogo. E isso só sobrevive onde há respeito pelo tempo e pela sanidade de quem escolheu ensinar.
Referências Bibliográficas
LAVAL, Christian. A escola não é uma empresa: o neo-liberalismo em ataque ao ensino público. Londrina: Planta, 2004.
OLIVEIRA, Dalila Andrade. A reestruturação do trabalho docente: precarização e flexibilização. Educação & Sociedade, Campinas, v. 25, n. 89, p. 1127-1144, dez. 2004.
Profª. Cristiane Aragão de Pontes Cabral
Docente do Curso de Pedagogia do Centro Universitário Ateneu.
Mestranda em Ciência da Educação, especialista em Linguística Aplicada: Ensino de Língua Estrangeira e em Ciência da Educação e graduada em Pedagogia.
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