A educação em saúde como meio de prevenção de intoxicações no Brasil atual

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Em um país marcado por desigualdades sociais, baixa escolaridade média e acesso ainda limitado à informação de qualidade, a prevenção de intoxicações humanas deveria ser pauta prioritária nas políticas públicas de saúde. No entanto, a toxicologia – ciência que estuda os efeitos nocivos de substâncias químicas sobre os organismos vivos – ainda é, paradoxalmente, tratada como um campo distante da população, restrita aos laboratórios, hospitais ou centros de informação. No Brasil atual, onde intoxicantes circulam livremente em ambientes domésticos, agrícolas e industriais, o fortalecimento da educação em saúde com foco toxicológico é mais do que uma necessidade: é uma estratégia de sobrevivência coletiva.

O número de intoxicações agudas por medicamentos, produtos de limpeza, agrotóxicos e alimentos contaminados permanece elevado no país, especialmente, entre crianças, trabalhadores rurais e pessoas em vulnerabilidade social. A subnotificação crônica desses casos, aliada à ausência de campanhas educativas regulares e fiscalização atuante, evidencia uma lacuna inaceitável entre o conhecimento científico acumulado e a sua aplicação em estratégias de prevenção efetiva. Não basta contar com centros de referência como o Centro de Informação e Assistência Toxicológica (Ciatox); é preciso levar a informação à ponta, onde a vida acontece e o risco se manifesta cotidianamente.

A toxicologia, nesse sentido, precisa sair dos muros acadêmicos e ser popularizada como ferramenta de cuidado e proteção à vida. Para isso, é essencial que profissionais de saúde – especialmente aqueles da atenção primária – incorporem temas toxicológicos em suas ações educativas. A escola, a unidade básica, o Centro de Referência de Assistência Social (Cras), a associação comunitária: todos esses espaços devem ser territórios férteis para falar sobre segurança no uso de medicamentos, riscos dos pesticidas, armazenamento seguro de substâncias químicas, e sinais precoces de intoxicação.

A formação profissional, por sua vez, ainda carece de uma abordagem mais crítica e aplicada da toxicologia no cotidiano da saúde pública. Em cursos da área da saúde, frequentemente o tema é tratado de forma teórica e desarticulada das realidades dos territórios. Enquanto isso, populações inteiras seguem expostas a práticas perigosas, como o reuso de embalagens de agrotóxicos, a automedicação desenfreada e o consumo de produtos adulterados.

Por outro lado, é preciso reconhecer que há experiências exitosas que mostram o potencial transformador da educação em saúde quando ela é feita com intencionalidade, linguagem acessível e diálogo com saberes populares. Oficinas sobre uso racional de medicamentos, rodas de conversa sobre intoxicação alimentar, visitas educativas a áreas rurais com orientação sobre o uso de EPIs: todas essas ações já provaram ser eficazes, mas seguem isoladas, dependendo da vontade e esforço de profissionais engajados.

No cenário atual, em que se discute a ampliação do uso de agrotóxicos, o desmonte de políticas públicas ambientais e a fragilidade de algumas instâncias reguladoras, o papel da educação em saúde ganha ainda mais urgência. Não há como prevenir intoxicações sem informar, dialogar, escutar e construir coletivamente estratégias de proteção. A toxicologia deve ser enxergada como área estratégica da saúde coletiva, e não apenas como resposta técnica aos casos já ocorridos.

Por fim, é necessário reafirmar que a prevenção de intoxicações não se faz apenas com antídotos e protocolos hospitalares, mas com presença nos territórios, linguagem compreensível e ações contínuas de educação em saúde. O Brasil precisa, com urgência, transformar conhecimento técnico em ferramenta de empoderamento popular. A toxicologia deve estar onde o povo está – para proteger, prevenir e garantir o direito à vida em sua forma mais plena.

Profª. Drª. Ana Isabelle de Gois Queiroz
Docente do Curso de Biomedicina do Centro Universitário Ateneu.
Doutora e mestra em Farmacologia, especialista em Farmácia Clínica e Serviços Farmacêuticos e em Farmacologia Clínica, especializanda em Farmácia Clínica e Atenção Farmacêutica: O Cuidado Farmacêutico na Prática e graduada em Farmácia.

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