Saúde mental: responsabilidade individual ou coletiva?

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Mental health concept. Paper cut human head symbol and flowers on a green background

A saúde mental tem ocupado lugar de destaque nos debates contemporâneos, especialmente, diante do aumento dos índices de ansiedade, depressão e esgotamento emocional observados em diferentes faixas etárias e contextos sociais. No entanto, apesar da crescente visibilidade do tema, ainda persiste uma compreensão reducionista que atribui o cuidado com a saúde mental quase exclusivamente ao indivíduo. Expressões como “é preciso ser forte”, “basta ter autocontrole” ou “é uma questão de mindset” revelam uma lógica que desconsidera os determinantes sociais, econômicos, culturais e institucionais que atravessam o sofrimento psíquico.

É inegável que o sujeito possui papel ativo no cuidado consigo mesmo. Buscar ajuda profissional, desenvolver estratégias de enfrentamento e reconhecer limites são atitudes importantes e legítimas. Contudo, quando a responsabilidade individual é colocada como eixo central, ou único, do cuidado em saúde mental, corre-se o risco de culpabilizar quem sofre. Essa perspectiva ignora que o sofrimento não emerge no vazio, mas é produzido e intensificado por contextos marcados por precarização do trabalho, desigualdades sociais, violência, discriminações e exigências constantes de desempenho e produtividade.

Nesse sentido, compreender a saúde mental como responsabilidade coletiva torna-se fundamental. Instituições educacionais, organizações de trabalho, políticas públicas e o próprio Estado exercem papel decisivo na promoção ou no adoecimento psíquico. Ambientes que naturalizam jornadas exaustivas, competitividade extrema, assédio moral e insegurança econômica contribuem diretamente para o sofrimento emocional. Assim, falar em saúde mental implica discutir condições de vida, acesso a direitos, políticas de cuidado e a construção de espaços sociais mais humanos e sustentáveis.

A lógica exclusivamente individualizante também favorece a medicalização excessiva do sofrimento, tratando sintomas sem questionar as causas estruturais que os produzem. Quando o foco se limita ao ajuste do indivíduo ao sistema, perde-se a oportunidade de refletir criticamente sobre o próprio sistema que adoece. A saúde mental, portanto, não pode ser reduzida a um projeto de autogerenciamento emocional, mas deve ser entendida como um campo ético, político e social que demanda corresponsabilidade.

Dessa forma, a pergunta que se impõe não é se a saúde mental é responsabilidade individual ou coletiva, mas como articular ambas de forma ética e comprometida. Cuidar de si é importante, mas insuficiente quando o contexto adoece. Fica, então, a reflexão final: Que tipo de sociedade estamos construindo quando exigimos que as pessoas se adaptem a condições que as fazem sofrer, em vez de transformar coletivamente essas condições? Pensar saúde mental é, antes de tudo, pensar o modo como escolhemos viver juntos.

Profª. Dhâmaris Fonseca do Amarante

Docente do Curso de Psicologia do Centro Universitário Ateneu.

Especialista em Gênero e Sexualidade, graduada em Psicologia e terapeuta sexual.

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