A dor que não aparece no exame clínico

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A dor orofacial constitui uma das queixas mais frequentes na prática odontológica e, na maioria das vezes, está associada a alterações clínicas ou radiográficas identificáveis. Contudo, há situações em que o paciente relata dor persistente e intensa sem que o exame clínico revele alterações compatíveis. Nesse contexto, destacam-se as dores orofaciais idiopáticas e neuropáticas, que desafiam o modelo tradicional de diagnóstico e tratamento. Embora não sejam visíveis aos exames convencionais, essas dores exercem impacto significativo na qualidade de vida do paciente, tornando-se um importante problema clínico e humano a ser discutido.

As dores orofaciais neuropáticas resultam de lesões ou disfunções do sistema nervoso, enquanto as dores idiopáticas caracterizam-se pela ausência de uma causa identificável, mesmo após investigação criteriosa. Em ambas as condições, a experiência dolorosa é real, contínua e, muitas vezes, incapacitante, apesar da ausência de sinais objetivos.

A dificuldade em reconhecer essas dores frequentemente conduz a diagnósticos equivocados, tratamentos odontológicos desnecessários e frustração tanto para o profissional quanto para o paciente. Quando a dor não se confirma nos exames, o sofrimento relatado pode ser minimizado ou desacreditado, o que agrava o impacto emocional da condição. Ansiedade, alterações do sono, limitação funcional e prejuízos sociais são consequências comuns desse processo.

Além do aspecto físico, o impacto psicossocial dessas dores evidencia a necessidade de uma abordagem ampliada, que considere o paciente em sua totalidade. O cirurgião-dentista deve reconhecer os limites do exame clínico tradicional, valorizar a escuta qualificada e atuar de forma integrada com outros profissionais da saúde. Essa postura contribui não apenas para um manejo mais adequado da dor, mas também para a construção de uma relação terapêutica baseada na confiança e no acolhimento.

As dores orofaciais idiopáticas e neuropáticas demonstram que nem toda dor é visível ou mensurável por exames complementares. Ignorar esse sofrimento compromete a qualidade do cuidado e reforça práticas inadequadas. Assim, é fundamental que o cirurgião-dentista esteja preparado para reconhecer essas condições, valorizar o relato do paciente e adotar uma abordagem ética, empática e fundamentada em evidências. O reconhecimento da dor que não aparece no exame clínico representa um passo essencial para uma Odontologia mais humana e comprometida com o bem-estar do paciente.

Prof. Antônio Rafael Oliveira e Silva
Docente do Curso de Odontologia do Centro Universitário Ateneu.
Mestrando em Disfunção Temporomandibular e Dor Orofacial, especialista em Ortodontia, em Odontologia para Pacientes com Necessidades Especiais e em Periodontia e graduado em Odontologia.

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