Reduzir o consumo de alimentos ultraprocessados basta ou estamos culpando o consumidor errado? O papel do sistema alimentar na promoção da saúde

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Reduzir o consumo de alimentos ultraprocessados é uma medida necessária para proteger a saúde e promover sistemas alimentares mais sustentáveis. Entretanto, responsabilizar apenas o consumidor e tratar essa mudança como uma decisão individual é insuficiente, uma vez que as escolhas alimentares são influenciadas por fatores estruturais, como socioeconômicos, culturais e ambientais, que ultrapassam a simples vontade do consumidor.

Segundo a classificação Nova, proposta pelo Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde, da Universidade de São Paulo (USP), em 2010, os alimentos ultraprocessados são formulações de substâncias obtidas por meio do fracionamento de alimentos in natura. Eles incluem comidas e bebidas, adicionadas de açúcar, óleos e gorduras, mas também concentrados proteicos, gordura hidrogenada, amidos modificados, entre outros ingredientes. Além disso, costumam conter corantes, aromatizantes, emulsificantes e outros aditivos utilizados para aumentar palatabilidade, durabilidade e a atratividade dos alimentos.

Um estudo recente realizado por pesquisadores brasileiros demonstrou aumento no consumo de alimentos ultraprocessados, que representam cerca de 20% da energia consumida diariamente. Evidências científicas nacionais e internacionais mostram que o consumo elevado desses produtos está associado ao maior risco de desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis, além de contribuir para impactos ambientais relacionados ao sistema alimentar, como maior emissão de gases do efeito estufa, elevado consumo de energia e maior geração de resíduos provenientes de embalagens.

Embora os riscos do consumo excessivo sejam amplamente reconhecidos, esse cenário não pode ser analisado sem considerar as desigualdades de acesso à alimentação adequada. O Guia Alimentar para a População Brasileira (GAPB) recomenda que a alimentação seja baseada majoritariamente de alimentos in natura ou minimamente processados. No entanto, o preço elevado dos alimentos frescos e a oferta predominante de ultraprocessados, favorecida pela estratégia de marketing da indústria, limita as possibilidades de escolha.

Desta forma, reduzir o consumo de alimentos ultraprocessados é importante para promover saúde e sustentabilidade, mas essa responsabilidade não pode recair exclusivamente sobre o consumidor. É necessário fortalecer políticas públicas que ampliem o acesso a alimentos saudáveis, promovam ambientes alimentares mais favoráveis e estimulem sistemas alimentares sustentáveis. Afinal, a alimentação saudável depende não apenas de escolhas individuais, mas também das condições estruturais que as tornam possíveis.

Profª. Ma. Greyceanne Cecília Dutra Brito
Docente do Curso de Nutrição do Centro Universitário Ateneu.
Doutoranda em Saúde Pública, mestra em Nutrição e Saúde e graduada em Nutrição.

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