O projeto arquitetônico é definido pela NBR 16636-1[1] como a representação de um conjunto de elementos conceituais, necessária à materialização de uma ideia arquitetônica, realizada por meio de princípios técnicos e científicos, visando à consecução de um objetivo ou meta. Para atingir essa meta, é preciso passar por um processo projetual cíclico, com idas e vindas entre etapas, configurando um fluxo interativo, crítico e multidisciplinar, que articula análise, criação, tomada de decisão e compatibilização. O processo projetual envolve compreender um problema, gerar ideias, testar, refinar e ajustar soluções.
A concepção de um edifício nasce de um contexto de múltiplas dimensões, de várias camadas de informações – imbricadas, superpostas, associadas –, em um percurso que vai do geral ao particular, por meio de uma dinâmica de idas e vindas, ramificada, não linear. A elaboração de um projeto de arquitetura compreende duas fases principais:
- Coleta de dados, na qual se faz o levantamento das informações sobre a problemática a resolver, define-se o programa de necessidades e estuda-se a viabilidade técnica, social e ambiental do empreendimento, dados que nortearão a definição do partido arquitetônico;
- Elaboração técnica, na qual estão presentes a concepção, desenvolvimento, compatibilização e projeto completo, abrangendo as etapas de estudo preliminar, anteprojeto e projeto executivo de arquitetura e complementares.
Na concepção e elaboração técnica de um objeto arquitetônico, o arquiteto dispõe de diferentes meios para transmitir ideias e representar o seu projeto, cabendo-lhe saber em que momento utilizar cada ferramenta disponível – desenhos, maquete física, maquete digital. Ressalte-se que as tecnologias digitais, embora avançadas e necessárias, não anulam o uso de recursos analógicos, como croquis feitos à mão e maquetes verdadeiramente tridimensionais, pois estes permanecem como ferramentas essenciais no processo de concepção arquitetônica.
Os croquis – desenhos pouco definidos que registram de imediato uma imagem mental – são traços exploratórios essenciais, que buscam encontrar soluções, expressando as diversas ideias do arquiteto, permitindo ao profissional dialogar com o próprio projeto antes de qualquer representação técnica, seja analógica ou digital. Para aqueles que dizem não saber fazer croqui à mão, este pode ser realizado por meio de aplicativos digitais, que preservam a rapidez do croqui tradicional e acrescentam as facilidades da edição e armazenamento.
A maquete física, por sua vez, também possibilita a tradução das ideias, porém, de modo espacial e tridimensional; ela é uma experimentação e visualização do projeto, podendo ser conceitual, de exibição ou de execução, dependendo da etapa do processo projetual. No âmbito da concepção, a maquete física conceitual é fundamental, e não se opõe à técnica, à tecnologia ou ao contexto contemporâneo, como nos ensina o mestre Paulo Mendes da Rocha.[2]
Trata-se de um momento de experimentação que a maquete eletrônica não substitui. Por meio dela, é possível perceber como as forças do lugar estão sendo capturadas (topografia, visuais, orientação), avaliar o edifício em seu contexto urbano, visualizar a relação entre cheios e vazios, testar as proporções, observar os efeitos da luz, decidir aberturas e elementos de proteção solar. Não é para ser mostrada a terceiros, é a maquete como croqui, um diálogo do arquiteto com o projeto e consigo mesmo.
A maquete eletrônica conceitual deve ser elaborada em etapa posterior à da maquete física conceitual, como modo complementar de criação, aplicando nela as decisões tomadas a partir do que se observou na maquete física. Diferente do render final, a maquete eletrônica conceitual tem caráter de experimentação, buscando a estrutura formal que possa refletir o conceito, a teoria, a ideia, apresentando aparência suave, praticamente monocromática.
A maquete renderizada pertence a etapa posterior, usada para apresentações comerciais, aprovação de clientes e para identificar erros de projeto antes da execução. Trata-se de modelagem fotorrealista, que simula a tridimensionalidade do objeto arquitetônico após construído, indicando volumes, texturas, vegetação, iluminação, sombras e reflexos.
Os croquis e as maquetes físicas conceituais são, portanto, essenciais à etapa de concepção, ao estudo preliminar do projeto, momento em que ferramentas analógicas devem ser utilizadas. As etapas posteriores (anteprojeto, projeto executivo, projeto final), entretanto, devem ser apresentadas por meio de desenhos desenvolvidos digitalmente, que representam com rigor e precisão as informações técnicas necessárias à compreensão e execução do projeto.
E, sobretudo, as representações dessas etapas finais do processo de projetação devem ser configuradas por meio do Building Information Modeling (BIM) ou Modelagem da Informação da Construção, metodologia que integra processos, pessoas e tecnologia para gerenciar informações de uma construção ao longo de todo o seu ciclo de vida.
Existe hoje no Brasil uma política pública nacional que orienta a implantação dessa metodologia, chamada Estratégia BIM BR, instituída pelo Decreto nº 11.888/2024, cujo objetivo central é criar condições para difundir a metodologia e promover a sua adoção no país, especialmente, no setor público. Decreto anterior (n° 10.306/2020) estabeleceu a utilização do BIM na execução direta ou indireta de obras e serviços de Arquitetura e Engenharia realizados pelos órgãos e entidades da administração pública federal, definindo etapas e prazos de implementação gradual, das quais duas já foram cumpridas.
Independentemente do meio pelo qual o projeto de arquitetura seja representado, o mais importante é o resultado arquitetural, é a busca pela poética do espaço, pois um edifício não pode ser visto apenas como um abrigo geométrico ou técnico, como as NBRs tratam. Deve ser proveniente, sobretudo, da sensibilidade espacial, que eleva o projeto para uma experiência de pertencimento e significado. A poética do espaço é a arquitetura da alma sobreposta à arquitetura da técnica.
[1] ABNT NBR 16636.1 – Elaboração e Desenvolvimento de Serviços Técnicos Especializados de Projetos Arquitetônicos e Urbanísticos. Parte 1: Diretrizes e Terminologia, 2017.
[2] ROCHA, Paulo Mendes da. Maquetes de papel. São Paulo: Cosac Naify, 2007.
Prof. Dr. Antônio Martins da Rocha Jr.
Docente do Curso de Arquitetura e Urbanismo do Centro Universitário Ateneu.
Doutor em Arquitetura e Urbanismo, mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente, especialista em Arquitetura e Instrumentação Crítica e graduado em Arquitetura e Urbanismo.
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