Comentar a aparência de pessoas públicas nas redes sociais tornou-se um comportamento comum, mas isso não significa que seja eticamente aceitável. A exposição faz parte da profissão de artistas, influenciadores e figuras públicas, porém, não elimina o seu direito ao respeito e à dignidade. O debate sobre os limites entre liberdade de expressão e responsabilidade digital é cada vez mais necessário, especialmente, em plataformas como o Instagram, onde a imagem ocupa papel central.
Profissionais da Estética têm o dever de analisar a face com olhar técnico, mas nunca transformar essa análise em julgamento público. Comentar, diagnosticar ou criticar a aparência de pessoas públicas no Instagram pode parecer apenas uma tendência das redes sociais, porém, levanta importantes questões éticas. Para quem atua ou pretende atuar com Harmonização Orofacial, compreender esses limites é tão importante quanto dominar as técnicas clínicas.
O Instagram incentiva a interação constante entre usuários e personalidades públicas. Entretanto, a facilidade para comentar não deve ser confundida com autorização para julgar, ridicularizar ou especular sobre características físicas. Comentários sobre envelhecimento, peso, procedimentos estéticos ou supostas mudanças na aparência podem reforçar padrões irreais de beleza e contribuir para a disseminação de discursos ofensivos.
O crescimento da busca por procedimentos estéticos ampliou a presença de profissionais nas redes sociais e transformou o Instagram em uma importante ferramenta de divulgação. Segundo a Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (Isaps), o Brasil permanece entre os países que mais realizam procedimentos estéticos no mundo. Paralelamente, a pesquisa Digital 2025, da DataReportal, mostra que os brasileiros estão entre os que passam mais tempo conectados às redes sociais. Nesse cenário, conteúdos que analisam rostos de artistas e influenciadores se tornaram frequentes, muitas vezes utilizando imagens sem autorização para apontar supostos procedimentos, envelhecimento ou “erros” estéticos.
Entretanto, a capacidade técnica de identificar alterações faciais não autoriza o profissional a emitir opiniões públicas sobre indivíduos que não são seus pacientes. Além de desconsiderar princípios como privacidade, respeito e dignidade da pessoa humana, esse comportamento pode estimular comparações irreais, reforçar padrões estéticos inatingíveis e incentivar uma cultura de críticas à aparência. A ética profissional exige que o conhecimento seja utilizado para educar a população e esclarecer procedimentos, e não para expor pessoas ou produzir conteúdo baseado na ridicularização de terceiros.
Essa reflexão deve fazer parte da formação dos futuros profissionais. Mais do que desenvolver habilidades técnicas, uma instituição de ensino superior (IES) comprometida com a excelência busca formar profissionais com responsabilidade social, senso crítico e postura ética, características cada vez mais valorizadas pelo mercado e fundamentais para construir uma relação de confiança com os pacientes.
Na Harmonização Orofacial, excelência técnica e ética caminham juntas. O conhecimento científico deve ser utilizado para promover saúde, autoestima e informação de qualidade, jamais para constranger pessoas ou alimentar julgamentos nas redes sociais. Formar profissionais conscientes desse compromisso é essencial para fortalecer a credibilidade da especialidade e contribuir para uma prática clínica mais humana, responsável e respeitosa.
Profª. Drª. Cinthya Quagliato Nogueira
Docente do Curso de Odontologia do Centro Universitário Ateneu.
Doutora e mestra em Ciências Odontológicas Aplicadas, especialista em Ortodontia e Ortopedia Facial e graduada em Odontologia.
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