Uma paciente de 68 anos chega ao consultório precisando extrair um dente. Na anamnese, menciona que toma um “cálcio para os ossos” há três anos. Nenhum alarme dispara. O dente é extraído. Semanas depois, o alvéolo não fecha, o osso fica exposto e o que era um procedimento de rotina se transforma em uma ferida que há meses não cicatriza. Neste cenário, o problema raramente está na técnica cirúrgica, mas no que não foi perguntado antes, resultando em uma necrose óssea associada ao uso de bisfosfonato.
A osteoquimionecrose dos maxilares deixou de ser uma curiosidade de congresso para se tornar um risco concreto da rotina clínica. Ainda tratamos a anamnese medicamentosa como formalidade de prontuário, quando ela deveria ser o primeiro filtro para decisões cirúrgicas.
A Associação Americana de Cirurgiões Bucomaxilofaciais (AAOMS) define a osteoquimionecrose como osso exposto na região maxilofacial, ou identificável por fístula, que persiste por mais de oito semanas em paciente sem histórico de radioterapia na região e sem doença metastática evidente nos maxilares, associado ao uso atual ou prévio de medicamentos antirreabsortivos ou antiangiogênicos. Autores como Clark e Glenny (2025) relataram uma incidência de até 7,21% em pacientes oncológicos.
A definição parece técnica, mas, na prática, aponta para algo simples: a cicatrização óssea falhou, e o motivo está em uma classe específica de fármacos que o paciente pode nem saber que representa risco odontológico. Essas drogas atuam suprimindo a atividade osteoclástica ou bloqueando a formação de novos vasos sanguíneos, mecanismos importantes para a remodelação e cicatrização óssea após qualquer trauma, incluindo uma extração simples. Entre os principais grupos estão os bifosfonatos, o denosumabe e os antiangiogênicos, como o bevacizumabe.
O gargalo não é a falta de protocolos: eles existem, são públicos e estão descritos nos position papers da American Association of Oral and Maxillofacial Surgeons desde 2007, com atualizações periódicas. O problema é a anamnese superficial. Perguntar “toma algum remédio?” e aceitar “só um para os ossos” como resposta, sem investigar qual medicamento, há quanto tempo e por qual via, não é anamnese, é “faz de conta”.
Um paciente em uso de alendronato oral há um ano tem um perfil de risco diferente daquele que utiliza ácido zoledrônico endovenoso associado a bevacizumabe para tratamento oncológico, e a conduta cirúrgica deve refletir essa diferença. A expectativa de vida maior e as alterações sistêmicas fazem com que haja um maior número de pacientes com uso de diversos tipos de medicamentos. Por isso, a anamnese detalhada e bem conduzida como a realizada na Clínica-Escola de Odontologia a UniAteneu não é um cuidado extra, mas o padrão mínimo aceitável diante do que a literatura já demonstrou sobre o risco.
Referências Bibliográficas
Campisi G, Mauceri R, Bedoggni A, Fusco V. Re: AAOMS Position Paper on Medication-Related Osteonecrosis of the Jaw — 2022 Update. Journal of Oral and Maxillofacial Surgery, vol. 80, 2022.
Clark ASE, Glenny A-M. The issue with incidence: a scoping review of reported medication-related osteonecrosis of the jaws (MRONJ) incidence around the globe. BMJ Public Health, vol. 5, 2025.
Ruggiero SL, Dodson TB, Aghaloo T, Carlson ER, Ward BB, Kademani D . American Association of Oral and Maxillofacial Surgeons’ Position Paper on Medication-Related Osteonecrosis of the Jaws — 2022 Update. Journal of Oral and Maxillofacial Surgery, 2022.
Prof. Antônio Rafael Oliveira e Silva
Docente do Curso de Odontologia do Centro Universitário Ateneu.
Mestrando em Disfunção Temporomandibular e Dor Orofacial, especialista em Ortodontia, em Odontologia para Pacientes com Necessidades Especiais e em Periodontia e graduado em Odontologia.
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