A qualidade da educação brasileira está diretamente relacionada à formação dos professores. Nesse contexto, o Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade), componente do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes), desempenha um papel estratégico ao avaliar os conhecimentos, as competências e as habilidades dos concluintes dos cursos de graduação. No caso das licenciaturas, o exame assume uma importância ainda maior, pois seus resultados permitem diagnosticar a qualidade da formação inicial dos futuros docentes e orientar políticas públicas voltadas ao fortalecimento da profissão.
Embora o Enade seja, muitas vezes, percebido apenas como uma avaliação obrigatória para os estudantes, a sua finalidade vai além da atribuição de conceitos aos cursos. O exame fornece evidências que subsidiam decisões institucionais, processos de regulação do ensino superior e ações de melhoria curricular. Dessa forma, contribui para que as instituições identifiquem fragilidades, revisem projetos pedagógicos e fortaleçam a formação de professores alinhada às demandas da educação contemporânea.
Os dados mais recentes reforçam a relevância desse acompanhamento. Segundo o Censo da Educação Superior 2024, o Brasil possui 7.789 cursos de licenciatura, correspondendo a aproximadamente 17% dos cursos de graduação ofertados no país, demonstrando a dimensão da formação docente na educação superior brasileira.
Além disso, o perfil dos docentes que atuam nas licenciaturas evidencia um elevado nível de qualificação acadêmica. De acordo com o Censo da Educação Superior, 67,3% dos professores que lecionam em cursos de licenciatura possuem doutorado, percentual superior ao observado em cursos de bacharelado (59,3%) e tecnológicos (37,9%). Outro dado relevante é que 76,9% desses docentes trabalham em regime de tempo integral, condição que favorece o desenvolvimento de atividades de ensino, pesquisa e extensão e fortalece a qualidade da formação inicial dos futuros professores.
Entretanto, os resultados do Enade das licenciaturas também revelam desafios importantes. Dados divulgados pelo Ministério da Educação referentes ao ciclo de 2025 mostram que 56,8% dos cursos avaliados obtiveram desempenho inferior ao nível considerado satisfatório, enquanto 35% dos cursos ficaram nas faixas 1 e 2 do conceito Enade, indicando necessidade de melhorias pedagógicas e institucionais.
Os resultados também evidenciaram diferenças significativas entre modalidades de ensino: entre os concluintes da educação a distância, 53,1% apresentaram desempenho insuficiente, ao passo que 73,9% dos estudantes dos cursos presenciais foram considerados proficientes. Esses indicadores demonstram que a avaliação não deve ser interpretada apenas como um ranking, mas como um instrumento de diagnóstico para orientar ações de qualificação da formação docente.
Nesse cenário, o Enade contribui para a valorização das licenciaturas ao tornar visível a necessidade de investimentos permanentes na formação inicial dos professores. Os resultados permitem às instituições de ensino superior rever metodologias, ampliar experiências práticas, fortalecer os estágios supervisionados e promover maior integração entre teoria e prática. Além disso, fornecem subsídios para políticas públicas voltadas ao aprimoramento dos cursos e ao desenvolvimento profissional docente.
Outro aspecto importante refere-se ao compromisso dos estudantes com a avaliação. O desempenho no Enade não representa apenas o conhecimento individual do concluinte; ele impacta diretamente indicadores institucionais, como o Conceito Preliminar de Curso (CPC) e o Índice Geral de Cursos (IGC), utilizados pelo Ministério da Educação para avaliar a qualidade das instituições de ensino superior. Assim, a participação consciente dos estudantes fortalece a credibilidade dos resultados e favorece a construção de diagnósticos mais consistentes sobre a formação docente.
Portanto, compreender o Enade apenas como uma obrigação burocrática significa reduzir a sua verdadeira função social. Quando utilizado como instrumento de reflexão e aperfeiçoamento, o exame torna-se um importante aliado da valorização das licenciaturas, da melhoria da formação inicial de professores e da elevação da qualidade da educação brasileira. Em um país que ainda enfrenta desafios relacionados à aprendizagem e à valorização da carreira docente, investir em avaliações que orientem decisões pedagógicas e políticas públicas representa um passo essencial para construir uma educação mais equitativa, crítica e comprometida com a transformação social.
Referências Bibliográficas
Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP). Censo da Educação Superior 2024.
Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP). Resumo Técnico do Censo da Educação Superior 2024.
Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP). Notas Estatísticas do Censo da Educação Superior 2021.
Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP). Microdados do Enade das Licenciaturas 2025.
Agência Brasil. Resultados do Enade das Licenciaturas 2025.
Profª. Drª. Bruna Germana Nunes Mota
Coordenadora do Curso de Pedagogia e dos cursos de licenciatura em EaD do Centro Universitário Ateneu.
Doutora e mestra em Educação, especialista em Linguagens, suas tecnologias e o mundo do trabalho e graduada em Pedagogia.
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