Cuidados paliativos e dignidade no ato de morrer: reflexão

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A morte, embora seja um evento universal e inevitável, permanece como um dos maiores tabus da sociedade contemporânea. No contexto acadêmico e da prática em saúde, falar sobre o fim da vida ainda provoca desconforto, resistência e, muitas vezes, silêncio. Esse medo coletivo de abordar a morte não é neutro: ele impacta diretamente a forma como cuidamos das pessoas em situação de terminalidade. Nesse cenário, os cuidados paliativos emergem não como sinônimo de abandono terapêutico, mas como uma proposta ética, humanizada e profundamente comprometida com a dignidade no ato de morrer.

Grande parte da dificuldade em aceitar os cuidados paliativos está relacionada à lógica curativa que ainda domina os sistemas de saúde e o imaginário social. A morte é frequentemente percebida como fracasso profissional, derrota da ciência ou sinal de desistência. Contudo, quando a possibilidade de cura se esgota, insistir em intervenções fúteis pode significar prolongar o sofrimento, e não a vida em sua plenitude configurando a distanásia. Nesse sentido, os cuidados paliativos deslocam o foco da doença para a pessoa, priorizando o alívio da dor, o controle de sintomas, o suporte emocional, social e espiritual, bem como o respeito aos valores e desejos do paciente.

É necessário reconhecer que, muitas vezes, a resistência à finitude não parte do paciente, mas daqueles que permanecem vivos. Há, nesse comportamento, um traço de egoísmo sutil e socialmente legitimado: a dificuldade de “permitir” a partida do ente querido. Sustentar a vida a qualquer custo pode representar mais o medo da perda, do luto e da ausência do que, de fato, uma defesa da vida digna. Dessa forma, o processo de morte é prolongado para satisfazer as demandas emocionais dos que ficam, em detrimento do alívio do sofrimento daquele que se encontra em fim de vida. Refletir sobre isso não significa culpabilizar familiares, mas reconhecer a complexidade emocional envolvida e a necessidade de acompanhamento adequado também para eles.

Os cuidados paliativos propõem uma mudança de paradigma: morrer não é um erro a ser evitado, mas uma etapa da existência que pode e deve ser vivida com respeito, conforto e sentido. Garantir dignidade no fim da vida implica ouvir o paciente, respeitar a sua autonomia, evitar tratamentos desproporcionais e oferecer presença qualificada. Trata-se de cuidar até o fim, e não de interromper o cuidado.

Para o público universitário, especialmente, das áreas da saúde, discutir cuidados paliativos é um imperativo ético e formativo. Formar profissionais tecnicamente competentes, porém incapazes de lidar com a finitude, é perpetuar práticas desumanizadas. Falar sobre a morte é, paradoxalmente, uma forma de valorizar a vida. Os cuidados paliativos nos ensinam que dignidade não está apenas em viver mais, mas em morrer melhor, com menos dor, com mais escuta e com maior respeito à condição humana.

Prof. Me. Daniel Nogueira Barreto de Melo
Docente do Curso de Fisioterapia do Centro Universitário Ateneu.
Mestre em Fisioterapia e Funcionalidade, especialista em Fisioterapia Esportiva, em Osteopatia Estrutural e em Fisioterapia em Traumatologia e Ortopedia e graduado em Fisioterapia.

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