Energéticos infantis: um risco silencioso à saúde bucal

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Nos últimos anos, bebidas energéticas e isotônicos voltados para o público jovem têm invadido escolas, quadras esportivas e redes sociais. Vendidos como produtos “fitness”, “para foco” ou “para atletas mirins”, conquistam crianças e adolescentes com marketing colorido, sabores intensos e promessas de desempenho. No entanto, pouco se discute sobre seus impactos diretos na saúde bucal, especialmente, no desenvolvimento de erosão dentária e cárie precoce, temas críticos dentro da Odontopediatria atual.

As bebidas energéticas infantis combinam alto teor de açúcares simples, acidez elevada e adoçantes artificiais, criando um cenário perfeito para o desequilíbrio do biofilme dental. A erosão causada pelo baixo pH fragiliza o esmalte, enquanto os açúcares fermentáveis alimentam bactérias cariogênicas, um ciclo que afeta diretamente a dentição decídua e permanente em formação.

Na prática clínica, odontopediatras têm relatado aumento de padrões erosivos em incisivos e molares, bem como maior prevalência de lesões cervicais em pacientes jovens altamente expostos a esses produtos. A situação se agrava pela natural imaturidade do esmalte recém-irrompido, tornando crianças alvos ainda mais vulneráveis.

Outro ponto sensível é o marketing agressivo, que usa influenciadores mirins, embalagens lúdicas e apelos esportivos. Muitos pais associam isotônicos à saúde e hidratação, quando, na realidade, a composição de várias dessas bebidas se aproxima de refrigerantes tradicionais. A ausência de regulamentação específica para publicidade voltada ao público infantil amplia ainda mais o problema.

No âmbito preventivo, o papel da Odontopediatria precisa ir além do consultório, expandindo-se para escolas, esportes e atenção primária. Educar famílias sobre leitura de rótulos, entender o real uso clínico de isotônicos (restrito a práticas esportivas intensas e prolongadas) e oferecer alternativas (como água e água de coco) são estratégias simples e eficazes.

A popularização de bebidas energéticas infantis representa um desafio emergente na Odontopediatria. Os seus efeitos vão além da estética dental, alcançando dimensões funcionais e psicossociais que acompanham o indivíduo até a vida adulta. É urgente ampliar o diálogo entre profissionais de saúde, famílias e gestores, para que o marketing não siga determinando hábitos alimentares de crianças. Investir em educação crítica, políticas de rotulagem e campanhas de conscientização é um caminho essencial para proteger a saúde bucal na infância e adolescência.

Profª. Ma. Karla Aguiar Cabral Cunha
Docente do Curso de Odontologia do Centro Universitário Ateneu.
Doutoranda em Saúde da Família, mestra em Clínica Odontológica, especialista em Odontopediatria e em Prótese Dentária e graduada em Odontologia.

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