Educação Física e saúde mental na adolescência: uma necessidade urgente nas escolas brasileiras

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A adolescência, período marcado por intensas transformações físicas, emocionais e sociais, tem visto um aumento alarmante nos transtornos de ansiedade, depressão e sofrimento mental entre jovens em idade escolar. Neste contexto, as aulas de Educação Física, mais do que espaços de movimento, podem se tornar ambientes estratégicos de promoção da saúde mental, desde que valorizadas, estruturadas e devidamente integradas às políticas públicas educacionais e de saúde.

Dados nacionais já são preocupantes: um estudo com 158.448 estudantes brasileiros entre 13 e 17 anos identificou que adolescentes que praticam menos de 45 minutos semanais de atividade física nas aulas apresentam 23% maior chance de sintomas de sofrimento mental quando comparados aos que praticam mais ativamente. Além disso, foi observada prevalência elevada de ansiedade, especialmente, entre meninas, adolescentes de 13 a 15 anos e estudantes pardos, evidenciando desigualdades sociais na saúde mental juvenil.

No plano internacional, uma crescente base de evidências reforça a relação entre atividade física regular e melhor saúde mental em jovens. Uma meta-análise recente mostrou que intervenções de atividade física melhoraram significativamente indicadores de ansiedade, depressão, estresse, autoestima e competência social em crianças e adolescentes com impacto mais forte em adolescentes no ensino secundário.

Esses achados se alinham a estudos que destacam a importância da atividade física como um fator protetivo contra transtornos mentais. Pesquisas sugerem que níveis mais altos de aptidão física frequentemente estimulados pela prática regular de atividades estruturadas estão associados a menores riscos de ansiedade, depressão e transtornos do déficit de atenção em jovens.

Por que isso importa para a Educação Física escolar? Ao contrário da visão reducionista que limita essa disciplina a jogos e exercícios isolados, a ciência mostra que o movimento pode influenciar positivamente aspectos cognitivos e emocionais do adolescente. Um estudo publicado na Scientific Reports encontrou relação significativa entre atividade física, autoconfiança e habilidades de gestão do estresse, fatores intimamente ligados à saúde mental.

Além do impacto biológico dos exercícios no cérebro, como a liberação de neurotransmissores que favorecem sensação de bem-estar, as aulas de Educação Física oferecem oportunidades únicas de socialização. A interação com colegas, a construção de confiança e a experiência de cooperação e pertencimento podem fortalecer redes de apoio social entre estudantes, um fator protetor conhecido contra a ansiedade e a depressão.

Ainda que esses mecanismos sejam valiosos, não se pode ignorar que a mera presença da aula não garante benefícios. A qualidade, a frequência e o contexto pedagógico são determinantes para que a Educação Física escolar tenha impacto real na saúde mental dos alunos. Programas mal estruturados, com pouca ênfase no envolvimento ativo de todos os estudantes, desperdiçam uma oportunidade de promoção da saúde integral.

No Brasil, onde o tempo dedicado à Educação Física muitas vezes é insuficiente ou fragmentado, a falta de uma política pública consistente compromete não apenas o desenvolvimento físico dos adolescentes, como mostram os dados da sua saúde emocional. Isso se torna especialmente crítico quando se considera que a adolescência é uma fase em que padrões de comportamento tendem a persistir na vida adulta, influenciando riscos futuros de saúde.

Mais do que reivindicar mais horas de aula, é preciso repensar a forma como a Educação Física é oferecida: com programas inclusivos, que considerem interesses diversos, promovam autoestima, reduzam estigma e estimulem habilidades socioemocionais. Professores qualificados, sensíveis às demandas psicológicas dos jovens, devem estar no centro dessa ação.

Gestores educacionais e formuladores de políticas públicas também têm papel fundamental. É urgente integrar a promoção da saúde mental às diretrizes curriculares e às práticas pedagógicas da Educação Física. Isso inclui investimentos em formação continuada de professores, parcerias com profissionais de saúde escolar e monitoramento sistemático dos indicadores de bem-estar dos estudantes.

Da mesma forma, pais e responsáveis devem ser aliados na valorização da prática física, incentivando a participação ativa dos filhos nas aulas e reconhecendo a disciplina como espaço de desenvolvimento integral, não apenas físico. A Educação Física escolar tem potencial para ser uma poderosa aliada na promoção da saúde mental da nossa juventude, mas isso exige compromisso político, visão pedagógica e base científica. Ignorar esses achados seria negligenciar não apenas o corpo, mas mentes jovens em formação.

Referências bibliográficas:

  • Soldi, C. (2025). O papel da educação física escolar na saúde mental de adolescentes (TCC, Universidade Federal de Santa Catarina).
  • Liang, L.-L., & Gau, S. S.-F. (2024). Physical Fitness and Risk of Mental Disorders in Children and Adolescents. JAMA Pediatrics.
  • Zhang, M., Gu, C., & Zeng, H., Yi, X. (2025). The impact of physical activity on adolescent mental health status: the mediating effect of school adaptation. Frontiers in Psychology.
  • The effects of physical activity on the mental health of typically developing children and adolescents: a systematic review and meta-analysis. (2025). BMC Public Health.
  • Ministério da Saúde (2021). 5 fatos que você precisa saber sobre atividade física e saúde mental na adolescência.

Profª. Ma. Cristiane Gomes de Souza Campos
Coordenadora do Curso de Educação Física do Centro Universitário Ateneu.
Mestra em Educação e Ensino, especialista em Treinamento Funcional e Especializado e graduada em Educação Física.

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