Uma observação a ser considerada sobre a relação entre a educação escolar e Inteligência Artificial diz respeito ao fato de que se trata de um lado, de um fenômeno contemporâneo, situada no contexto social e histórico, chamado de era digital, indicadora de uma nova forma de comunicação humana; por outro lado, faz parte de uma série de revoluções que ocorreram ao longo do processo da industrialização capitalista, a partir do século XVIII, apoiado sobremaneira na ciência técnica moderna e na criação de várias instituições do Estado, como fábricas, indústrias, escolas, hospitais e outras, apontando para um cenário mais antigo do surgimento de tal relação.
Nesse caso, seria possível dizer que a Inteligência Artificial como uma nova tecnologia a ser introduzida no processo de ensino-aprendizagem além de não ser exatamente uma nova tecnologia, seria fruto de um projeto social-educativo nascido na modernidade, cujo compromisso com a formação humana das novas gerações estaria mais ligado à inteligência técnico-cognitiva e comportamental, voltada para o mercado de trabalho e menos para dimensão ética, que serve de orientação para os valores e os conhecimentos transmitidos no contexto da educação escolar.
Assim, não se trata apenas de criar novos métodos pedagógicos, baseados em evidências teóricas e práticas da Psicologia ou da Sociologia, como se está propagandeando. Talvez seja necessário conhecer um pouco da história, sob pena de tornar os profissionais da educação escolar, e todo corpo que a faz acontecer, meros aplicadores da IA. Por exemplo, as famosas metodologias ativas ganham seu devido valor quando são reconhecidas os seus princípios de base. Ou seja, se o contexto escolar não sinaliza práticas reais de inclusão, de democracia, de justiça, etc., como poderiam se tornar verdadeiras as noções de protagonismo do aluno uma aprendizagem significativa?
Para concluir, a reflexão proposta aqui sobre a relação entre educação escolar e a Inteligência Artificial, para além dos benefícios que possa ter como, por exemplo, despertar o interesse do aluno, ou fazer do aprendizado, um processo ativo, colaborativo, saindo da chamada escola tradicional; não parece ser a questão central se a Inteligência Artificial vai substituir a inteligência humana, por que é obvio que não vai. Isso parece mais uma distração, tal como quando foi criado os primeiros objetos mecânicos que pareciam mágicos, ao realizar movimentos automáticos.
Por isso, interessa aqui a seguinte questão: não estaríamos repetindo uma mesma cena, onde a tecnologia criada/inventada/avançada muda para continuar o mesmo? Ou seja, mesmo se fazendo valer da importância das novas tecnologias, as escolas de modo geral não estariam continuando formando alunos de corpos dóceis, disciplinados e patologizados, distantes daqueles de caráter ativo, ético, críticos-reflexivos?
Profª. Drª. Francirene de Sousa Paula
Docente do Curso de Psicologia do Centro Universitário Ateneu.
Doutora em Educação, mestra em Educação Brasileira e graduada em Psicologia.
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