O tratamento da fibromialgia foi pautado em uma tentativa frustrante de silenciar a dor através de tratamento farmacológico. O uso de antidepressivos, anticonvulsivantes e analgésicos de ação central tornou-se o padrão ouro, mas com um custo alto: efeitos colaterais sistêmicos, baixa adesão a longo prazo e a sensação, por parte do paciente, de que está “mascarando” a dor. Nesse cenário de busca por terapias não químicas, a Estimulação Elétrica Transcutânea Auricular do Nervo Vago (TaVNS) emerge como uma mudança de filosofia. Em vez de inundar o sistema com moléculas, é proposto uma “reafinação” elétrica de uma rede biológica complexa.
A estimulação elétrica auricular pode ajudar pacientes com dores crônicas. O ramo auricular do nervo vago (ABVN), que inerva regiões como a concha cymba e o trago, é um portal de acesso direto ao tronco encefálico. A aplicação de estímulos elétricos nessas zonas envia sinais ao Núcleo do Trato Solitário (NTS), que por sua vez se conecta ao Locus Coeruleus e aos núcleos da rafe. Esse circuito é considerado nossa farmácia interna, com liberação de noradrenalina, serotonina e endorfinas que ativam as vias descendentes de inibição da dor. No paciente com fibromialgia, essas vias estão adormecidas. A estimulação vagal ativa a via anti-inflamatória colinérgica, reduzindo citocinas pró-inflamatórias que mantêm a glia em estado de hiperativação.
A fibromialgia é o resultado de uma sensibilização central, onde o cérebro amplifica estímulos mínimos. A TaVNS atua como um “reset” para essa rede neural hiperexcitável. Ao melhorar a variabilidade da frequência cardíaca (VFC) e restaurar o tônus parassimpático, a técnica diminui a ação simpática, permitindo que o sistema nervoso central filtre melhor a entrada nociceptiva.
Uma grande vantagem deste tratamento é que, diferentemente de técnicas como a Estimulação Magnética Transcraniana (EMT), que exigem deslocamentos diários a centros especializados, a neuromodulação por TaVNS pode ser realizada em qualquer lugar por meio de um aparelho portátil, sendo o paciente protagonista de seu próprio tratamento. Essa percepção de autoeficácia é um componente terapêutico poderoso na gestão da fibromialgia, reduzindo a catastrofização e a ansiedade associadas às crises de dor.
Mesmo sendo uma terapia promissora, não há protocolos específicos e definidos, onde há variações de frequência entre 10 e 30Hz e frequência de pulso entre 0,15 e 0,30 ms. Além disso, existe a ação do efeito placebo, que é elevado quando se usa aparelhos eletrônicos. No entanto, ensaios clínicos randomizados mostram que, mesmo descontando o efeito placebo, a melhora na qualidade do sono, na fadiga e no humor é estatisticamente superior no grupo que recebe a estimulação ativa.
A fibromialgia é uma doença que exige tratamento multidisciplinar. A TaVNS é uma terapia não invasiva, segura, que pode ser utilizada como uma poderosa ferramenta no tratamento, não apenas da fibromialgia, mas também das demais dores crônicas.
Prof. Dr. Eduardo de Almeida e Neves
Docente do Curso de Fisioterapia do Centro Universitário Ateneu.
Doutor em Biotecnologia, especialista m Educação a Distância, especializando em Quiropraxia e graduado em Fisioterapia.
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