As unidades de terapia intensiva (UTI) são espaços complexos, em que a tecnologia salva vidas, mas também revela fragilidades do cuidado em saúde. A alta complexidade clínica, o uso contínuo de dispositivos invasivos e a vulnerabilidade dos pacientes fazem da UTI um território fértil para eventos adversos. Infecções relacionadas à assistência à saúde (Iras), lesões por pressão (LP), extubações não planejadas e perdas de dispositivos são mais do que indicadores negativos: são expressões concretas de falhas sistêmicas que desafiam diariamente os profissionais de Enfermagem.
Mesmo com avanços tecnológicos e científicos, estudos recentes mostram que as Iras continuam entre as principais causas de morbimortalidade em UTI, especialmente, aquelas associadas à ventilação mecânica e a cateteres venosos centrais (LEE et al., 2023). Esses dados expõem um paradoxo: quanto mais sofisticado o cuidado, maior a necessidade de processos humanos altamente qualificados. Não é possível falar em segurança do paciente sem reconhecer que ela nasce da prática cotidiana, do olhar atento e do compromisso ético dos profissionais à beira do leito.
As lesões por pressão seguem o mesmo caminho. Ainda que existam diretrizes claras para prevenção, a incidência permanece elevada. Moore, Webster e Samuriwo (2022) demonstraram que programas multicomponentes reduzem significativamente esses eventos, mas apenas quando há adesão real da equipe. Isso revela que o problema não é a ausência de conhecimento, mas a dificuldade em transformar protocolos em prática viva, integrada à rotina assistencial.
Outro evento que simboliza a fragilidade dos sistemas de cuidado é a extubação não planejada. Fatores como sedação inadequada, agitação do paciente, falhas na fixação do tubo e comunicação ineficaz entre a equipe são causas recorrentes (ZHANG et al., 2024). Esses episódios, além de colocarem a vida do paciente em risco, aumentam o tempo de internação e os custos hospitalares. Para mim, eles representam o retrato de uma assistência que, muitas vezes, ainda reage aos problemas em vez de preveni-los.
Nesse cenário, o enfermeiro intensivista não pode ser visto apenas como executor de rotinas. Ele é gestor do cuidado, articulador de processos e agente central na construção da cultura de segurança. Estudos indicam que ambientes com liderança forte de Enfermagem e cultura organizacional positiva apresentam menores taxas de eventos adversos (MALLET et al., 2024). Isso reforça a necessidade de investir não apenas em tecnologia, mas, principalmente, em pessoas.
A adoção de bundles de prevenção e programas de capacitação contínua tem mostrado impacto significativo na redução de infecções e outros eventos adversos (KIM et al., 2023). Contudo, na prática, ainda enfrentamos resistência, sobrecarga de trabalho e limitações estruturais. Em minha visão, esses obstáculos não podem ser justificativos para a manutenção de modelos inseguros de cuidado. Eles devem ser o ponto de partida para mudanças organizacionais profundas.
Diante disso, observa-se que a formação de profissionais em Saúde, em Enfermagem, precisa estimular uma postura crítica desde a graduação. O estudante deve compreender que cada procedimento carrega um potencial de risco e que a segurança do paciente depende de decisões conscientes, baseadas em evidências e sustentadas por valores éticos.
A UTI continuará sendo um ambiente de risco. No entanto, o que define seus resultados não é apenas a gravidade dos pacientes, mas a qualidade das relações, dos processos e da liderança. A Enfermagem, ao assumir seu protagonismo, transforma esse território hostil em um espaço que a vida tem mais chances de prevalecer.
Profª. Drª. Ana Cleide Silva Rabelo
Docente do Curso de Enfermagem do Centro Universitário Ateneu.
Doutora e mestra em Cuidados Clínicos em Enfermagem e Saúde, especialista em Terapia Intensiva para Enfermeiros e Fisioterapeutas e Enfermagem Cardiovascular e graduado em Enfermagem.
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