O cenário contemporâneo da saúde revela uma crescente complexidade na atenção ao paciente. A multiplicidade de doenças crônicas, a polifarmácia e a fragmentação dos serviços tornam evidente que nenhum profissional de saúde, isoladamente, é capaz de responder de forma plena às demandas do cuidado. Nesse contexto, a integração multiprofissional emerge como requisito essencial para transformar a prática em um espaço de cuidado colaborativo, ético e resolutivo.
Integrar diferentes saberes significa ir além da atuação compartimentalizada. É compreender o paciente em sua integralidade, reconhecendo que médicos, farmacêuticos, enfermeiros, psicólogos, nutricionistas, fisioterapeutas e outros profissionais possuem olhares complementares sobre o mesmo sujeito. Sem essa articulação, corre-se o risco de reduzir o cuidado a procedimentos isolados, distantes da realidade concreta de quem convive com doenças complexas e precisa de acompanhamento contínuo.
Falar de integração multiprofissional é lidar com múltiplas camadas: a necessidade de compartilhar informações clínicas, a responsabilidade de construir planos terapêuticos conjuntos, a sensibilidade para respeitar o papel de cada profissão e a coragem de dialogar em pé de igualdade. O cuidado em saúde, quando sustentado por práticas colaborativas, ocupa justamente esse espaço entre a prescrição e o cotidiano do paciente, entre a teoria científica e a vida real.
A prática em saúde exige muito mais do que conhecimento técnico específico de cada área. Exige empatia para compreender o sofrimento, escuta ativa para captar demandas ocultas e postura ética para não reduzir o paciente a um diagnóstico ou a um protocolo. Exige também firmeza para questionar condutas fragmentadas e coragem para propor alternativas terapêuticas integradas, como mudanças de estilo de vida, acompanhamento multiprofissional e educação em saúde.
Quando os profissionais atuam com intencionalidade colaborativa, tornam-se elos fundamentais para que o paciente compreenda o porquê, o como e o quando de seu tratamento. Orientar sobre horários de medicamentos, discutir efeitos adversos, planejar dietas adequadas, propor exercícios físicos e oferecer suporte psicológico são ações que, quando articuladas, fazem diferença na vida de quem convive com doenças crônicas ou complexas. Muitas vezes, o abandono do tratamento não decorre da falta de vontade, mas da ausência de orientação clara e de vínculo com uma equipe integrada.
É necessário destacar: a integração multiprofissional não deve ser confundida com sobreposição de funções. Pelo contrário, ela deve estar pautada no respeito à especificidade de cada área, na ética do cuidado e na valorização da complementaridade dos saberes. O paciente deve ser visto como centro do processo, e não como objeto de disputa entre categorias profissionais.
Além disso, a efetividade da integração não depende apenas da presença de diferentes profissionais. Ela é reflexo direto da forma como o cuidado é oferecido. Quando equipes multiprofissionais se fazem presentes em espaços como unidades básicas de saúde, hospitais, clínicas ou centros especializados, oferecendo linguagem acessível, disponibilidade para o diálogo e postura crítica, fortalecem a autonomia do paciente e contribuem para a segurança terapêutica.
Portanto, a integração multiprofissional na prática em saúde é uma construção delicada e necessária, que precisa estar enraizada no respeito à singularidade de cada pessoa, no compromisso com o uso racional dos recursos terapêuticos e na promoção de uma adesão ética e consciente. Mais do que garantir procedimentos corretos, o papel das equipes de saúde é cuidar para que o tratamento seja compreendido, aceito e, sobretudo, respeitado como parte de um processo de cuidado mais amplo, humano e digno.
Profª. Drª. Ana Isabelle de Gois Queiroz
Docente do Curso de Fisioterapia do Centro Universitário Ateneu.
Doutora e mestra em Farmacologia, especialista em Farmácia Clínica e Serviços Farmacêuticos e em Farmacologia Clínica, especializanda em Farmácia Clínica e Atenção Farmacêutica: O Cuidado Farmacêutico na Prática e graduada em Farmácia.
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